Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

516.

As Palavras e as Coisas
(sobre paz e felicidade,
com o perdão de Sartre!)

Sombrios são os labirintos da mente
por onde sonhos alçam voo
em asas de morcegos,
rastejam ilusões feito percevejos
e esgueiram-se as razões,
plantadas sabe-se lá de onde
no âmago de toda a gente,
com suas luzes de archotes
que a teimosia humana acende
nas crenças inúteis de sua aposta.
Os paraísos são variados,
mesmo que tecidos dos mesmos
delírios sem sentido,
quase sempre feitos das imagens
que por toda a eternidade
animam os passos da humanidade,
reluzindo, meio sujos, meio turvos,
ao fim desses túneis intermináveis.
Mas, sejamos honestos!
Ao menos, menos cegos,
como fazem velhos céticos
cumulados de revezes.
Aos que na paz tão almejada,
por escassa fé ou à falta de mais vaga,
façam do Éden sua breve morada,
os interstícios do destino
lhes reservam uma silenciosa agonia
a crescer-lhes a cada dia
no cerne do que os tornam
o que não mais seriam,
onde o coração das gentes,
imerso em morna alegria,
acaba por bater em desespero,
sempre do mesmo jeito.
*  Trocando em miúdos,
bem pode a nau da paz,
refém das calmarias,
ser dragada pelo mar inóspito
da monotonia!
Os mais ávidos de resultados,
tocados pelos dedos desgovernados
do acaso, na terra da bem aventurança
verão tremular a flâmula da felicidade
hasteada no mais alto mastro.
Ainda que, por puro cansaço,
também essa minguada horda de eleitos
se dissolverá na paisagem,
assolada pelo tédio
a consumir-lhe o espírito
até não haver mais que enfado,
fazendo dos antes alvissareiros escolhidos
os quase-benditos felizardos.
** Trocando em miúdos,
as areias douradas da felicidade,
lambidas pelo mar bravio,
reino de maremotos e tempestades,
sem prévio aviso fazem-se em miragens
para o náufrago que jamais
alcançará as suas margens.
Então, o que mais resta?
Restam os labirintos,
entre o lodo e a opaca claridade,
o roçar das rochas na pele esfolada,
o calor, o medo e a umidade,
onde proliferam esperanças sem razão,
se recriam fantasias sem perdão
e engravidam-se as ilusões...
E, com tudo isso,
não somos menos que um milagre,
pouco provável, da evolução.
Sem reino dos céus ou deus de ocasião
que tome conta do maldito bordel,
nem sequer o galante cavalheiro
a lhe estender a mão!

Eliseo Martinez
29.01.2026

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