O Tombo
Talvez eu enlouqueça,
não sei.
Ou, com o arco do desejo
permaneça bicho inquieto
a flechar o coração selvagem de tudo,
longe ou perto.
Ou, ainda, passe ao modo stand by
e morra de tédio, mudo, frio e quieto.
Só sei deste incômodo,
que vem e depois vem de novo.
Deste desassossego e do difuso medo.
Das ideias que na mente grudam.
Vida que carrega a própria morte e outras dores.
Frondosa árvore dos mil tumores,
mentira, confusão, temor e ira.
Dos lugares cheios de vazio,
da saudade do que esqueci
e da vontade mole de estar fora do tempo,
que vem como neblina fina
e depois faz-se nevoeiro denso,
emerge tal qual lótus, um ímpeto de ser,
ser simplesmente, sem consciência,
desvairado, sem idade.
A andar solto pelas ruas nuas da cidade,
rir, rir, rir, desapegado, lúcido e contente
e, assim, agarrar forte a maldita felicidade,
enlouquecidamente...
Eliseo Martinez
06/04/2015
Foda demais, Eliseo. Me lembrou um trecho recente que li em Cioran, Exercícios de admiração, quando ele fala de Beckett:
ResponderExcluir"Nossos pontos de partida importam, naturalmente, mas só damos o passo decisivo em direção a nós mesmos quando não temos mais origem, quando oferecemos tão pouca matéria para biografia quanto Deus...".