Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

17.

 O PÉ DA ATRIZ


Eu vi a uva, que era; hoje, com a dura graça, passar quase-passa.
Kronus assinou o roteiro do tempo no rosto ainda bem feito.
Dos rios dos lusos vincos natos, partiam-lhes afluentes traços.
O sorriso talhado a dar-lhe ares de bondosa matrona contente.
Com pisar de passo largo e o nariz ao alto do cenário apontado.
Na trajetória estudada, marcas cénicas entre o povo em luta na praça. Se me viu? Presumo que sim, pois tangenciou a um braço e sumiu. Como de hábito, improvisou como diva escolada, de salões ensaiada. Só não escapou ao atento espectador, na primeira fila instalado, o que diziam os olhos da atriz a ver-se com o pé além do tablado. Ao se observar, o observador surpreendeu-se à distância da cena da peça ao palco Matriz levada e, pela claque, de turnê aguardada.
Coisa estranha a mente da gente, ao dar de cara com a obra de arte.


Eliseo Martinez                                                                                                                                  18/09/2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

16.



Juízo Final



Se invocasse o tempo escorrido, ele atenderia pela alcunha de bodas de granito.
Como saído de um corte, pelo ralo escorre o sumo agridoce do desejado sentir forte.
Visitei mundos caleidoscópicos, de bizarras gentes e ligeiros prazeres hipnóticos.
Andei sem rumo, à sorte. Flertei com o medo que gruda, insana ira, maldade pura,
traição, mentira, horizonte perto e amenas distrações que me pouparam do tédio certo.
Inodoras flores, desmaiadas na cor, que um teimoso querer quis dar vida e frescor.
Não menti ao simular ardores, contrabandeados pela fronteira da boca, a mando da mente. O peito, a muito mudo, a observar tudo. Peito não pensa, sente.
Por força da condição de par, confesso, não sem esforço, que o sentir foi pouco.
No giro da vida, entre um nada e o ralo troco, faço-me ímpar alheio a porto de chegada.
Pelo possuído um dia, sorrio sob o véu da ironia e, covarde, ouso ser justo só neste dia.
Em segredo, trago a ferros guardadas à pele do selvagem coração, duas tatuagens gravadas.
Uma, nos verdes anos, tons pasteis vestia, o rosto de carijó pintado, cúmplice, me via.
De mãos dadas, desenhamos o amor redondo. Gerou um ovo ausente, e um segundo despresente.
Outra, nascida longe, para além do mar profundo. Como inquietos companheiros, fomos ao mundo, regando com licores e vinho loucos gozos juntos. Diques a me represarem, confiante, fez ruir muitos. Era de um azul cintilante e, se o cometa passou, deixou no vácuo o brilho anil do gelo de seu rastro.
Seres de partilhas anchas, com quem dividi inteiro meus tantos erros e alguns luzeiros.
Se flutuam no passado, visito-as nos espaços vastos da memória. Únicos grandes amores de minha trajetória.
Nas dores e prazeres, por intensas luas cheias, lúcidas, amigas, amantes, companheiras.
Hoje, no revés da fúria dos versos, da pele fez-se casco, enfunam velas aos desafetos.
A tranca torno e ao peito passo. Acusado ou, pior, absolvido, neste caso de duplo desencontro vivido, volto a cobrir com sangue, pele, ossos o que na vida mais importa e mal não fez à alma torta.
Com inabalável ânimo manco, no ar pesado, desencanto, firmo o passo e, mais livre que querendo, sigo andando.
Mas, por vezes, quando no além-dia-a-dia, virtú e fortú se roçam de passagem na mesma encruzilhada e grãos de luz alçam revoada, desavisado me pego com um outro sorriso esboçado pelo que trago em segredo bem guardado.


Eliseo Martinez                                                                                                                   18.09.2015                                                                                                                                                                                                                                                

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

15.


Bastou ver o mar e linda fez-se a tarde que arde

 
Um sentimento de nostalgia denuncia algo extraviado no tempo passado. De uma só vez, buli com o bem e o mal arrumado.
Tenho escutado o fado. Não para reviver o tempo escorrido, amassado. No entanto, ao escutá-lo, penso, e nesse pensar, repenso-me...
Bem no passado, o som do fado já me soava fora do tempo, a sobreviver em lugar indevido, tomando emprestado uma existência que já não lhe pertencia, aparentado de entes como os tamancos de uma dona Emília e áureos dentes. Esse era o significado que, então, preenchia o signo da criança que eu era.
Mais tarde, já adulto, voltei a escutá-lo, mas agora, como presente do acaso, associado a um longo encontro amoroso, antes de se tornar um tanto..., como dizer?, desastroso. Já que era o mesmo fado que escutava, o ouvido com o qual passei a ouvi-lo é que deve ter mudado e, sob as lentes do afeto, eu com ele andado.
A beleza do fado vem da força crua com que o fadista, ao expor-se, expõe a própria dor. E com isso, rompe as comportas que separam o cantor, toda a gente e seu amor. Na coragem de cantá-la, faz relicário, à revelia da imagem bem arrumada, devidamente esterilizada, cultuada no tempo presente.
O fado fala do sentir de um povo de um pequenino país-tampão - que separa uma de outra poderosa nação - e sua visão de mundo encharcada da moira grega, por nós, chamada destino.  Todo um universo forjado na força dos acontecimentos e na impotência dos acontecidos. Pessimista, por certo. Mas, talvez, fale das coisas com mais razão no que elas de fato são, se nos propusermos a agarrar-lhes o coração. Fala da dívida que nossas alegrias sempre acabam por ter com o que nos fere e faz doer.
Enquanto expressão alfacinha – nome sofrido pelos nascidos em Lisboa – gerada nas vielas tortas de Alfama, fez-se, no vigor do canto forte, arte.
O fado faz contraponto à virtual realidade mal percebida, levando-nos a suspeitar de um rosto por trás da máscara que à cara levamos vestida. Na afronta de falar do que essencialmente somos, denuncia nossa natureza ambígua, moldada na imagem desencaixada de existências que, em essência, ardem por trás da maquiagem.
Hoje, tendo a rever vivências, que foram vividas num tempo que corria em velocidade própria, menos acelerada. Tento revisitar com mais cuidado o que passou sem ter sido, por mim, devidamente considerado e que passa, assim, a ser inventariado.
No percurso do verde ao gris dos anos, arrumamos um inquilino que da casa quer ser dono. Passamos a tingir os dias com a cor ocre das perdas. Sob o instinto de autopreservação, passo a acreditar que um dos capítulos para compor a obra de uma ecologia de nós mesmos deva versar sobre o princípio do não desperdício, expondo uma miríade de esbanjamentos que forçosamente praticamos no transcurso todo de uma vida em movimento.
Hoje, procuro vasculhar, recuperar, ressignificar, revalorizar o que jaz esquecido, mas não perdido, em algum canto empoeirado da memória, protegido por um tecido tecido de afeto, que resiste sob a fuligem, para onde foi empurrado pelo vigor da juventude, pela ilusão de infinitude ou, dito de outra forma, pela falta de se perguntar da própria morte. Pouco importa se o que nos mova seja a culpa  – eterno fardo dos velhos –, o amolecimento amoroso frente ao fim próximo, o medo de desaparecer ante o pouco que nos resta do muito que imaginamos ter vivido, ou, ainda, o débito contraído pela realidade com os sonhos sonhados. No final, podendo alcançar algo de algum valor. Algo que diz respeito ao improvável passo que se possa ainda dar para conhecermos um pouco melhor quem somos, já que disso costumamos ser mais ignorantes do que supomos.
O incerto neste movimento, rebelde ao que banaliza, é o quanto de clara luz pode-se encontrar sob o pó, por nós mesmos puído, e o quanto de sombras vão lhe sobrepor.


Eliseo Martinez
Setembro de 2015