Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

15.


Bastou ver o mar e linda fez-se a tarde que arde

 
Um sentimento de nostalgia denuncia algo extraviado no tempo passado. De uma só vez, buli com o bem e o mal arrumado.
Tenho escutado o fado. Não para reviver o tempo escorrido, amassado. No entanto, ao escutá-lo, penso, e nesse pensar, repenso-me...
Bem no passado, o som do fado já me soava fora do tempo, a sobreviver em lugar indevido, tomando emprestado uma existência que já não lhe pertencia, aparentado de entes como os tamancos de uma dona Emília e áureos dentes. Esse era o significado que, então, preenchia o signo da criança que eu era.
Mais tarde, já adulto, voltei a escutá-lo, mas agora, como presente do acaso, associado a um longo encontro amoroso, antes de se tornar um tanto..., como dizer?, desastroso. Já que era o mesmo fado que escutava, o ouvido com o qual passei a ouvi-lo é que deve ter mudado e, sob as lentes do afeto, eu com ele andado.
A beleza do fado vem da força crua com que o fadista, ao expor-se, expõe a própria dor. E com isso, rompe as comportas que separam o cantor, toda a gente e seu amor. Na coragem de cantá-la, faz relicário, à revelia da imagem bem arrumada, devidamente esterilizada, cultuada no tempo presente.
O fado fala do sentir de um povo de um pequenino país-tampão - que separa uma de outra poderosa nação - e sua visão de mundo encharcada da moira grega, por nós, chamada destino.  Todo um universo forjado na força dos acontecimentos e na impotência dos acontecidos. Pessimista, por certo. Mas, talvez, fale das coisas com mais razão no que elas de fato são, se nos propusermos a agarrar-lhes o coração. Fala da dívida que nossas alegrias sempre acabam por ter com o que nos fere e faz doer.
Enquanto expressão alfacinha – nome sofrido pelos nascidos em Lisboa – gerada nas vielas tortas de Alfama, fez-se, no vigor do canto forte, arte.
O fado faz contraponto à virtual realidade mal percebida, levando-nos a suspeitar de um rosto por trás da máscara que à cara levamos vestida. Na afronta de falar do que essencialmente somos, denuncia nossa natureza ambígua, moldada na imagem desencaixada de existências que, em essência, ardem por trás da maquiagem.
Hoje, tendo a rever vivências, que foram vividas num tempo que corria em velocidade própria, menos acelerada. Tento revisitar com mais cuidado o que passou sem ter sido, por mim, devidamente considerado e que passa, assim, a ser inventariado.
No percurso do verde ao gris dos anos, arrumamos um inquilino que da casa quer ser dono. Passamos a tingir os dias com a cor ocre das perdas. Sob o instinto de autopreservação, passo a acreditar que um dos capítulos para compor a obra de uma ecologia de nós mesmos deva versar sobre o princípio do não desperdício, expondo uma miríade de esbanjamentos que forçosamente praticamos no transcurso todo de uma vida em movimento.
Hoje, procuro vasculhar, recuperar, ressignificar, revalorizar o que jaz esquecido, mas não perdido, em algum canto empoeirado da memória, protegido por um tecido tecido de afeto, que resiste sob a fuligem, para onde foi empurrado pelo vigor da juventude, pela ilusão de infinitude ou, dito de outra forma, pela falta de se perguntar da própria morte. Pouco importa se o que nos mova seja a culpa  – eterno fardo dos velhos –, o amolecimento amoroso frente ao fim próximo, o medo de desaparecer ante o pouco que nos resta do muito que imaginamos ter vivido, ou, ainda, o débito contraído pela realidade com os sonhos sonhados. No final, podendo alcançar algo de algum valor. Algo que diz respeito ao improvável passo que se possa ainda dar para conhecermos um pouco melhor quem somos, já que disso costumamos ser mais ignorantes do que supomos.
O incerto neste movimento, rebelde ao que banaliza, é o quanto de clara luz pode-se encontrar sob o pó, por nós mesmos puído, e o quanto de sombras vão lhe sobrepor.


Eliseo Martinez
Setembro de 2015

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