21.
INCERTAS CERTEZAS
- I -
Apenas duas coisas podemos ter como certas:
o fim comum que nos espera a todos e o imponderável de tudo o mais que nos cerca. No
entanto, habituamo-nos a jogar âncora às águas rasas das “certezas”, para as quais nos arrastam as correntes gêmeas da esperança e do medo, numa recusa à trágica herança que nos acompanha desde o instante que nada
mais somos que semente.
Uns poucos milênios bastaram
para que com áureos fios de ilusão, tecêssemos o espeço manto de proteção. Tantas mãos de tinta foram caiadas que nos sumiu da vista a textura do verdadeiro casco forjado na dura luta. Criamos paraísos delirantes e infernos agonizantes para, logo a seguir, habitarmos a zona limítrofe de suas fronteiras.
Apesar de raça nova, tornamo-nos senhores
de todo o pulsar vital sob a curva celestial, onde, por acaso ou ato estudado, nos
multiplicamos em frenética espiral. Criamos mitos, que do temor da fé foram nutridos, aplacando o ancestral
terror de um mundo assustador. Há bem pouco tempo – 2.700 anos –, inventamos uma outra forma de
organizar o pensar e com o vigor da razão ligamos ao todo cada grão.
Assim, mais leves, sem o
formidável peso dos velhos deuses zangados, continuamos nossa caminhada, melhor
equipados. Passamos a crer que pela vontade do homem, não só nosso pequeno
planeta, mas todo o universo se move. Um novo panteão sagrado, passa a ser
formado pelo sacrossanto progresso, a infalível Ciência, a dadivosa Cultura, a
divina lógica, avançando numa mesma História.
Íamos bem... Passamos a reconhecer
o próprio gênio por trás das obras do passado, edificamos com labor o fugaz instante presente e projetamos um novo Ocidente. No breve transcurso do fenômeno humano, experimentávamos nas utopias sublimes o esplendor dos
séculos de ouro da espécie onipotente.
Mas, de tanto sonhar, acabamos por ver nossos sonhos rachar e, por fim, sobre
nossas cabeças, ruidosamente desabar.
Já não caminhamos sob o véu transparente da luz clara. Agora, o próximo passo, sempre mais rápido, nos conduz a um
nevoeiro opaco. Uma a uma, vamos deitando ao chão as armas da razão. Perplexos,
vimos ruir o que entendíamos por Realidade e Verdade, assim como o sentido do Belo, do Bom e do Justo. De artesões que se habituavam a costurar totalidades, passamos a bordar retalhos em quantidade.
A bagagem, de seu peso aliviado, não
dispensou a pulsão do saber, com a qual fomos talhados. A Ciência, mais que nunca, obstinada a chocar os ovos da Técnica, produz saberes, por ora, incertos.
Dominamos o mistério que
data a morte do torrão esférico que pisamos e que, de nossa pequena estrela maior, é apenas mais uma
rocha que em seu oco, arde feito uma tocha. A Terra, que zune a 18 mil km por segundo no espaço, está a meio caminho de esgotar a validade de seu prazo. Nos próximos 5 bilhões de anos, o sol de tanto embriagar-se
do próprio hidrogênio, vai colapsar-se sobre si mesmo, já
tendo atraído para um último tórrido beijo um a um dos astros que lhe seguem o rastro.
Sabemos que a preceder o toque
fatal, o último resquício de vida já terá se extinguido aqui do quintal e, bem
antes, teremos nosso final.
Foi-nos pressagiado pelo oráculo da Episteme que nos próximos 1.500 anos, mais uma vez, Gaya será vingada ao vestir-se com suas roupas de gelo, acabando com a maior parte da vida que abriga. Não
devemos desaparecer totalmente. Na última era glacial, há 10 mil anos atrás, restaram alguns milhares de homo sapiens. Com o auxílio dos saberes, por
ventura preservados, restarão, talvez, uns poucos milhões de nós.
Tanta glória, tanta façanha, tanta
trapaça gravada na memória. De que matéria etérea, afinal, são feitos os
sonhos que movem esta nossa pobre raça?
- II -
Hoje, num bairro central de Porto
Alegre, esvaziando-me, escrevo sob a luz de velas, não por alguma romântica estética,
mas pela tempestade que privou este canto da cidade da foça elétrica por dois intermináveis dias.
Papel e caneta ressuscitados, já que o computador jaz morto, assim como sem
vida estão a geladeira, o televisor, o som, o elevador, a torradeira... o carro trancado na garagem e até
mesmo o icônico celular, esse fio virtual que nos prende a teia global, agonizou e, desfalecido, com a alma descarregada, pifou. Passados um par de dias, sem a familiar
energia, a polis tem abalada sua suposta ordem natural e, desnorteada,
assiste atônita ao caos material e o drama de tanta gente real, que se espalha
como bíblica epidemia indecente.
Ainda, hoje, depois da chuva intensa, foram
encontrados os corpos dos homens desaparecidos.
Vidas de mãe e filha foram
ceifadas ao desabar o teto de sua humilde morada. Milhares de desabrigados por
toda a região, na parte mais rica da nação. Em muitas dessas residências
inundadas pela torrente das águas, os náufragos permanecem sob
a calamidade e o risco eminente de morte por temer o possível saque - pobres órfãos da sorte. Serviços que deixam de
funcionar. Sistemas tornados inoperantes. Ruas que não dão passagem, transformadas em canais navegáveis...
Dias atrás, com o justo movimento
dos funcionários, quando policiais cruzaram os braços, pessoas não saiam às ruas para abastecer-se no supermercado
temendo a violência que se espalhou pela cidade. Escolas fechadas, a educação, já fraca, travada. Hospitais, quando o faziam, só
nas emergências atendiam.
Chuva forte e míseras reivindicações de
trabalhadores bastaram para abalar nossas mais arraigadas ilusões de segurança,
do direito de ir e vir, do acesso à comunicação, do mais modesto conforto e das rotinas que temos, à priori, por certas. Como antídoto ao lampejo que denuncia
a fragilidade de nossas vidas, viramos para o lado e, se já não sonhamos,
banalizamos, à espera de boas novas. Ás vezes, parece que uma única coisa prospera: a sombra do imenso consenso das maiorias silenciosas...
OBS.: Só falta a velha safada má-fé transformar está reflexão inquieta em apoio ao golpe do impeachment .
Eliseo Martinez outubro de 2015