Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 31 de outubro de 2015

24.




Giro sob a inquietude de forças vadias.
Que esperar, ao acordar,
se permitisse que, à noite,
o beijo ácido da melancolia
arrancasse-me a pele dos lábios
para limpar-lhes o gosto alcaçuz da orgíaca folia,
que, se bem não faz,
é eficaz elixir para o que o mal nos traz ?
Às vezes, sou cata-vento de cimento...

Eliseo Martinez
30/10/2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

23.

SOBRE O TAMANHO DAS COISAS


Fala-se das coisas como se fossem uma só coisa.
Como se houvesse um harmônico concerto entre
os falantes. O amor, o desejo, a vontade, a busca,
o medo, a saudade... a própria morte.
Uma única palavra pode portar inúmeras sortes,
além dos vários tamanhos que lhe cabem no porte.
Se basta à palavra ter uma só casca,
suas entranhas são feitas de múltiplos sensos.
Quase tantos quanto tanto tem de gente,
que lhe acolhem em sentidos tão diferentes.
Não é outra a causa de ser difícil a ciência e a arte
de uma vívida convivência que nos arrebate.
Às demais, banais, bastam as cascas.



Eliseo Martinez
28/10/2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

22.


-  Bom, acho que falta pouco. Já vai acabar ...
-  E o que podemos fazer ?
-  Podemos viver o que dá !
- Tá.

Eliseo Martinez
26/10/2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015

21.

INCERTAS CERTEZAS


-  I  -

Apenas duas coisas podemos ter como certas: o fim comum que nos espera a todos e o imponderável de tudo o mais que nos cerca. No entanto, habituamo-nos a jogar âncora às águas rasas das “certezas”, para as quais nos arrastam as correntes gêmeas da esperança e do medo, numa recusa à trágica herança que nos acompanha desde o instante que nada mais somos que semente.
Uns poucos milênios bastaram para que com áureos fios de ilusão, tecêssemos o espeço manto de proteção. Tantas mãos de tinta foram caiadas que nos sumiu da vista a textura do verdadeiro casco forjado na dura luta. Criamos paraísos delirantes e infernos agonizantes para, logo a seguir, habitarmos a zona limítrofe de suas fronteiras. Apesar de raça nova, tornamo-nos senhores de todo o pulsar vital sob a curva celestial, onde, por acaso ou ato estudado, nos multiplicamos em frenética espiral. Criamos mitos, que do temor da fé foram nutridos, aplacando o ancestral terror de um mundo assustador. Há bem pouco tempo – 2.700 anos –, inventamos uma outra forma de organizar o pensar e com o vigor da razão ligamos ao todo cada grão.

Assim, mais leves, sem o formidável peso dos velhos deuses zangados, continuamos nossa caminhada, melhor equipados. Passamos a crer que pela vontade do homem, não só nosso pequeno planeta, mas todo o universo se move. Um novo panteão sagrado, passa a ser formado pelo sacrossanto progresso, a infalível Ciência, a dadivosa Cultura, a divina lógica, avançando  numa mesma História.
Íamos bem... Passamos a reconhecer o próprio gênio por trás das obras do passado, edificamos com labor o fugaz instante presente e projetamos um novo Ocidente. No breve transcurso do fenômeno humano, experimentávamos nas utopias sublimes o esplendor dos séculos de ouro da espécie onipotente.

Mas, de tanto sonhar, acabamos por ver nossos sonhos rachar e, por fim, sobre nossas cabeças, ruidosamente desabar.
Já não caminhamos sob o véu transparente da luz clara. Agora, o próximo passo, sempre mais rápido, nos conduz a um nevoeiro opaco. Uma a uma, vamos deitando ao chão as armas da razão. Perplexos, vimos ruir o que entendíamos por Realidade e Verdade,  assim como o sentido do Belo, do Bom e do Justo. De artesões que se habituavam a costurar totalidades, passamos a bordar retalhos em quantidade.

A bagagem, de seu peso aliviado, não dispensou a pulsão do saber, com a qual fomos talhados. A Ciência, mais que nunca, obstinada a chocar os ovos da Técnica, produz saberes, por ora, incertos.
Dominamos o mistério que data a morte do torrão esférico que pisamos e que, de nossa pequena estrela maior, é apenas mais uma rocha que em seu oco, arde feito uma tocha. A Terra, que zune a 18 mil km por segundo no espaço, está a meio caminho de esgotar a validade de seu prazo. Nos próximos 5 bilhões de anos, o sol de tanto embriagar-se do próprio hidrogênio, vai colapsar-se sobre si mesmo, já tendo atraído para um último tórrido beijo um a um dos astros que lhe seguem o rastro.
Sabemos que a preceder o toque fatal, o último resquício de vida já terá se extinguido aqui do quintal e, bem antes, teremos nosso final.
Foi-nos pressagiado pelo oráculo da Episteme que nos próximos 1.500 anos, mais uma vez, Gaya será vingada ao vestir-se com suas roupas de gelo, acabando com a maior parte da vida que abriga. Não devemos desaparecer totalmente. Na última era glacial, há 10 mil anos atrás, restaram alguns milhares de homo sapiens. Com o auxílio dos saberes, por ventura preservados, restarão, talvez, uns poucos milhões de nós.

Tanta glória, tanta façanha, tanta trapaça gravada na memória. De que matéria etérea, afinal, são feitos os sonhos que movem esta nossa pobre raça?



-  II  -

Hoje, num bairro central de Porto Alegre, esvaziando-me, escrevo sob a luz de velas, não por alguma romântica estética, mas pela tempestade que privou este canto da cidade da foça elétrica por dois intermináveis dias. Papel e caneta ressuscitados, já que o computador jaz morto, assim como sem vida estão a geladeira, o televisor, o som, o elevador, a torradeira...  o carro trancado na garagem e até mesmo o icônico celular, esse fio virtual que nos prende a teia global, agonizou e, desfalecido, com a alma descarregada, pifou. Passados um par de dias, sem a familiar energia, a polis tem abalada sua suposta ordem natural e, desnorteada, assiste atônita ao caos material e o drama de tanta gente real, que se espalha como bíblica epidemia indecente.

Ainda, hoje, depois da chuva intensa, foram encontrados os corpos dos homens desaparecidos.
Vidas de mãe e filha foram ceifadas ao desabar o teto de sua humilde morada. Milhares de desabrigados por toda a região, na parte mais rica da nação. Em muitas dessas residências inundadas pela torrente das águas, os náufragos permanecem sob a calamidade e o risco eminente de morte por temer o possível saque - pobres órfãos da sorte. Serviços que deixam de funcionar. Sistemas tornados inoperantes. Ruas que não dão passagem, transformadas em canais navegáveis...
Dias atrás, com o justo movimento dos funcionários, quando policiais cruzaram os braços, pessoas não saiam às ruas para abastecer-se no supermercado temendo a violência que se espalhou pela cidade. Escolas fechadas, a educação, já fraca, travada. Hospitais, quando o faziam, só nas emergências atendiam.

Chuva forte e míseras reivindicações de trabalhadores bastaram para abalar nossas mais arraigadas ilusões de segurança, do direito de ir e vir, do acesso à comunicação, do mais modesto conforto e das rotinas que temos, à priori, por certas. Como antídoto ao lampejo que denuncia a fragilidade de nossas vidas, viramos para o lado e, se já não sonhamos, banalizamos, à espera de boas novas. Ás vezes, parece que uma única coisa prospera: a sombra do imenso consenso das maiorias silenciosas...

OBS.: Só falta a velha safada má-fé transformar está reflexão inquieta em apoio ao golpe do impeachment .


Eliseo Martinez                                                                                                                                                          outubro de 2015
20.


MUDAM-SE OS TEMPOS ...



O REINO DOS DEUSES   Bem antes do alvorecer da Antiguidade, quando os pilares de nossa gente foram plantados e ainda nos deleitávamos com o tardio engenho do verbo articulado, representamos, e depois acreditamos, que o poder supremo pertencia a deuses medonhos. A invenção da fala gera o mito e com ele a ordem divina é fundada. Um oceano sobrenatural passa a inundar com as temíveis sombras do mal cada canto da frágil vida humana, presa à promessa de ser salva pela fantasmagórica nau da fé, de popa à proa apontada em linha reta para o lugar-nenhum de uma raça sobre-humana. Ao solo fértil da imaginação era jogado um fétido poder, fazendo germinar a resistente semente da religião, a mais desumana das humanas invenções.

A ASCENSÃO DA RAZÃO   Ao cabo da larga noite, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, expresso no verso de um português caolho. Assim, na Modernidade, fizemos uma barganha sem igual: trocamos os velhos deuses, já de pouca função, pela divinização da libertadora razão. Partido os grilhões da religião com o velho humanismo dos gregos em ascensão, divisamos as mais belas utopias jamais sonhadas, animando projetos de vida e delírios de igualdade coletiva na esteira do credo do progresso certo, forjado na vontade do homem, restaurando a perdida totalidade. Instaura-se a ordem humana.

A CRISE DA RAZÃO   Com a Pós-modernidade, estilhaça-se o espelho e se multiplicam caleidoscópicos fenômenos. Um deles atualiza o tecido conjuntivo em que estamos mergulhados, dando suporte às relações: a nova natureza do consenso.
           O CONSENSO - Hoje, operamos novo negócio, bem mais modesto, apesar do brilho de neon à fachada iluminada bem servir aos fins da hora marcada: de um único todo, fizemos muitos pedaços. Operamos o prodigioso milagre da multiplicação do real e da verdade, antes, unidades. No lugar dos deuses cansados, e com os sonhos de uma razão despedaçada no mundo virtualizado da imagem segmentada, elegemos o consenso como o novo teocampeão da estação, sempre em sua última versão. As velhas massas livres de pudores, agora promovidas a manadas de consumidores, assumem ares de sélficas felicidades sob os refletores. No entanto, sem lugar para tantos que vão se acotovelando, nascidos por aqui ou vindos desenraizados de outros cantos, sós entre multidões, customizaram o medo arrivista da antiga exclusão para cumprir as metas sob nova direção. Sobe aos céus a sacrossanta ânsia de pertencimento, que para o sumo desejo foi eleito. Zelosos do risco do tédio geral e da solidão de cada um, no horizonte onde se levanta o sol negro da crescente falta de acentos, reinaugura-se a estação de caça às vozes conflitantes, aos olhares desviantes, aos ouvidos de outras afinações amantes. Olhados, assim, de longe, devemos parecer poças coaguladas de sangue.

Hoje, o signo do consenso assume um outro significado. Antes de expressar o concerto orquestrado do moderno passado, ele passa a ser o movimento da foice, na mutilação e poda do contraditório pensado. Se, às superfícies, a diversidade é mais comumente tolerada, tendo conquistado amplamente seu direito de ser no cruzar de transeuntes atomizados, as profundas diferenças de âmago, antagônicas, batem a cara no muro dos consensos que se levanta sempre que aquelas apontam na curva da estrada. Surgem as tribos, que coabitam, mas não se comunicam. No campo da política, já há algum tempo, faz-se notório o incômodo embaçamento das - antes nítidas - fronteiras, entre os de cá e os de lá, na morte anunciada da classe, esvaziando de sentido o que poderia definir o que pensar, o como agir, na existência real dos homens, transportando-os para um mesmo palco, que os cega pelo excesso de luz, onde cada um é senhor para escolher sua fala e que figurino vestir, num ofício etéreo de metafísico ator.
Para os tempos pós-modernos, onde a vontade e a razão totalizantes foram banidas, acaba-se por banir também a velha ideia humanista de justiça. O que passa a vigorar são os arranjos táticos e momentâneos, já que se esfumaram as estratégias de prazo longo, que deram vida e norte ao extinto mundo moderno.



Eliseo Martinez  
14/10/2015

terça-feira, 13 de outubro de 2015

19.

Não desgosto dos dias chuvosos,
mas é nas tempestades,
quando racham o céu os raios
e troa o surdo estrondo dos trovões,
que minha alma gira desinquietada,
neste canto perdido do universo,
solta no nada,
no preciso instante
em que o tempo faz-se par
e tira o espaço para dançar
e, com ele,
lasciva e furiosamente,
flerta.


Eliseo Martinez
13.10.2015


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

18.


FÉ CEGA NA RAZÃO AFIADA


Do arco do demiurgo surdo e mudo parte a seta reta do tempo curvo,
flechando de morte torso humano de um gado alheio à própria sorte.
Sísifo, de sábio ignorar, levanta-se teimoso, empunha lança, corajoso.
Mente clara, punhos cerrados, forte brado, torna o calmo leito, turvo.
Assim fomos nós ao mundo, escudo da fé na mão e as armas da razão.
De seu fuso, as moiras já não recitam uma a uma suas falas decoradas,
mesmo que dos fins ninguém duvide, pois estão por certo apontados.
Frágil homem, faz-se alado, vence vencendo o tempo que lhe foi dado.
Ao mover consciências,  doma o caos do acaso das ímpares vontades,
retraça o caminho já traçado, reescrevendo toda a trágica caminhada.
E nesta luta, dá sentido e essência ao non sense da precária existência.
Todos juntos, somos a seiva que alimenta o devir lento do movimento,
De presos ao caule do tempo que zuni ao vento, agora, enfim, sendo...

Eliseo Martinez                                                                                                                                                    07.10.2015