Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 20 de outubro de 2015

20.


MUDAM-SE OS TEMPOS ...



O REINO DOS DEUSES   Bem antes do alvorecer da Antiguidade, quando os pilares de nossa gente foram plantados e ainda nos deleitávamos com o tardio engenho do verbo articulado, representamos, e depois acreditamos, que o poder supremo pertencia a deuses medonhos. A invenção da fala gera o mito e com ele a ordem divina é fundada. Um oceano sobrenatural passa a inundar com as temíveis sombras do mal cada canto da frágil vida humana, presa à promessa de ser salva pela fantasmagórica nau da fé, de popa à proa apontada em linha reta para o lugar-nenhum de uma raça sobre-humana. Ao solo fértil da imaginação era jogado um fétido poder, fazendo germinar a resistente semente da religião, a mais desumana das humanas invenções.

A ASCENSÃO DA RAZÃO   Ao cabo da larga noite, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, expresso no verso de um português caolho. Assim, na Modernidade, fizemos uma barganha sem igual: trocamos os velhos deuses, já de pouca função, pela divinização da libertadora razão. Partido os grilhões da religião com o velho humanismo dos gregos em ascensão, divisamos as mais belas utopias jamais sonhadas, animando projetos de vida e delírios de igualdade coletiva na esteira do credo do progresso certo, forjado na vontade do homem, restaurando a perdida totalidade. Instaura-se a ordem humana.

A CRISE DA RAZÃO   Com a Pós-modernidade, estilhaça-se o espelho e se multiplicam caleidoscópicos fenômenos. Um deles atualiza o tecido conjuntivo em que estamos mergulhados, dando suporte às relações: a nova natureza do consenso.
           O CONSENSO - Hoje, operamos novo negócio, bem mais modesto, apesar do brilho de neon à fachada iluminada bem servir aos fins da hora marcada: de um único todo, fizemos muitos pedaços. Operamos o prodigioso milagre da multiplicação do real e da verdade, antes, unidades. No lugar dos deuses cansados, e com os sonhos de uma razão despedaçada no mundo virtualizado da imagem segmentada, elegemos o consenso como o novo teocampeão da estação, sempre em sua última versão. As velhas massas livres de pudores, agora promovidas a manadas de consumidores, assumem ares de sélficas felicidades sob os refletores. No entanto, sem lugar para tantos que vão se acotovelando, nascidos por aqui ou vindos desenraizados de outros cantos, sós entre multidões, customizaram o medo arrivista da antiga exclusão para cumprir as metas sob nova direção. Sobe aos céus a sacrossanta ânsia de pertencimento, que para o sumo desejo foi eleito. Zelosos do risco do tédio geral e da solidão de cada um, no horizonte onde se levanta o sol negro da crescente falta de acentos, reinaugura-se a estação de caça às vozes conflitantes, aos olhares desviantes, aos ouvidos de outras afinações amantes. Olhados, assim, de longe, devemos parecer poças coaguladas de sangue.

Hoje, o signo do consenso assume um outro significado. Antes de expressar o concerto orquestrado do moderno passado, ele passa a ser o movimento da foice, na mutilação e poda do contraditório pensado. Se, às superfícies, a diversidade é mais comumente tolerada, tendo conquistado amplamente seu direito de ser no cruzar de transeuntes atomizados, as profundas diferenças de âmago, antagônicas, batem a cara no muro dos consensos que se levanta sempre que aquelas apontam na curva da estrada. Surgem as tribos, que coabitam, mas não se comunicam. No campo da política, já há algum tempo, faz-se notório o incômodo embaçamento das - antes nítidas - fronteiras, entre os de cá e os de lá, na morte anunciada da classe, esvaziando de sentido o que poderia definir o que pensar, o como agir, na existência real dos homens, transportando-os para um mesmo palco, que os cega pelo excesso de luz, onde cada um é senhor para escolher sua fala e que figurino vestir, num ofício etéreo de metafísico ator.
Para os tempos pós-modernos, onde a vontade e a razão totalizantes foram banidas, acaba-se por banir também a velha ideia humanista de justiça. O que passa a vigorar são os arranjos táticos e momentâneos, já que se esfumaram as estratégias de prazo longo, que deram vida e norte ao extinto mundo moderno.



Eliseo Martinez  
14/10/2015

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