Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

27.




Não que valham algo as palavras errantes,
nata nas calmarias, poeira na fúria de ventanias,
mas, algumas soam como deveriam soar palavras
que vazam cachoeiras da boca seca dos amantes,
no acaso do ocaso em que viajam sós por rotas remotas,
como as encontradas numa curva do espaço exterior,
no terceiro anel de Saturno, em estranha inscrição
esculpida a fogo num asteroide duro de gelo azul:
"Por onde andam Pillares, Matildes, Dulcineias?
Personagens de nossas mais interiores, únicas e
imprescindíveis odisseias."   
                                                     Caminhante das Estrelas 


Eliseo Martinez
30/11/2015

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

26.


OUROS DE TOLO


I

Dentre todo o vasto sentir humano, o que mais forte me toca
e, por vezes mesmo, em mim, o inebriar dos olhos provoca,
é o sentimento expresso num gesto de RECONHECIMENTO.
Contra a corrente, em tempos de esbanjamento e eus famintos,
de aqui e agora, mas deixa pra outra hora, de usa e joga fora,
é um tapa na cara do banal e ordinário presente sem história.
O ato de reconhecer, brota antes como uma semente exigente.
Apenas germina em solos enriquecidos por valores parecidos,
no acaso do encontro de virtudes entre o miolo nu das gentes.
Tem na generosidade a fonte que lhe fornece a vital umidade.
Denuncia uma forma despojada de amar, irrigada pelo olhar,
que se permite abandonar ao ver, lá fora, o outro a passar.
Sem mais dispor, celebra o rito, agradece, se declara devedor.





II

Dentre os gestos humanos, um possui força peculiar,
nos flecha e convida a parar. Detém o mistério que
altera a luz, dá graça ao movimento, desarma e seduz.
É como bate à alma o feitiço de um SORRISO recebido.
Vasculhando o cesto onde eu os tenho bem guardados, embrulhados em afeto já que com eles fui presenteado,
reencontro, entre tantos, hologramas de teu sorriso.
De todos, o que mais me encanto ter sido enfeitiçado.


Eliseo Martinez
23/11/2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

25.

BRANCA

Figurantes amadores passando por atores,
ao tentar roubar a cena, foram o que são,
e não representaram mais que dores.
Cruéis, negaram à atriz ligar-lhe o talo à raiz,
privando-a do direito germinal de saber e ser feliz.
Filha da avó Maroca, foi amparada e criada
distante da mãe torta.
Doce criança magoada, à altura, desbocada.
Mulher armada de escudo, bainha sem espada.
Porcelana branca e delicada, gueixa de secretos
ardores dotada. Aquietou-me legiões de demônios
por mil noites insones. Tenaz, teceu manto invisível
e foi à luta pela vida. Das conquistas alcançadas,
à ninguém deve nada. Bicho forte, sabedor da
própria sorte, sobrevive e diz que algum dia ainda vive.
Amiga generosa, fez dos livros bons amigos.
Se de suas entranhas, filho não saiu, é mãe afetuosa
das crias de outras que as pariu. Por vezes,
sem cuidado, despertei-lhe seus temores, noutras,
leves, festejamos o farto banquete dos sabores.
Ombro a ombro, pé na rua, caminhadas, nas
conversas animadas, desfila a rara existência reta,
ornada por natural classe discreta.
Conquistou-me a confiança, pelo dom da temperança,
em um mundo de desdém, que cospe em sua herança.
Ainda que uma pedra levasse ao peito,
a parte que lhe reservo há de bater sempre quente,
como quente foi no leito.

Eliseo Martinez
18.11.2015