Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

31.

FALAS ELETIVAS


Escusa-te de vasculhar entre as palavras,
buscando as que dizem porque cogitaram em ti.
São tuas, estas que falam, agora, jogadas aqui,
como teus são os seios mais belos que já vi.
Da caixinha onde guardo sorrisos com estrelinha,
boa parte foi presente teu para o deleite meu.
Das comidas à noitinha aos lautos manjares,
feitos por nós, como pares, gêmeos cucas, tu e eu.
Em estéticos devaneios compomos espaços,
afinando o traço no intervalo dos abraços.
Também te pertence o respeito que conquistaste.
Justo preço pago por tua garra e caráter.
Se não bastasse, o sabor por distantes lugares
traçam mapas de nossas afinidades mais vulgares.
Quanto às demais ?
Faltou-nos o tempo e o desprendimento.
Para saber, para viver mais...

Eliseo Martinez
23/12/2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

30.



Línguas de fogo lambem e rasgam
a pele macia de seus ásperos dias.
Conscrito de malditas maltas de banidos.
Entre cicatrizes, fendas laranjas sorriem.
Jorra a rocha derretida dos sentidos,
no pulso do espírito, desperta rebeldia.
Metido nas velhas roupas de briga,
veste o amor sua mais dura armadura.
Mais que sopro de vida, faz-se ventania.
Das brumas da alma, entumece a fúria.
No prenúncio do embate, move a existência,
e, em seu rastro escarlate, é movido nela.
Desde o fundo dos tempos foi resistência.
Agora, herético, é a chama de aço da vela.
Ressaca. Vagas desmoronam turbulências.
À costa, um coração em paz na justa luta.

Nova trégua antes da próxima refrega,
em dias que giram dentro da mesma esfera,
que, indiferente, a todos e a cada um, carrega.

Eliseo Martinez
17/12/2015

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

29.

Gotas do Mal  I


É preciso roçar ao osso o "não",
raspar a pulsão de pertencer,
miragem, placebo da solidão.
Nestes tempos desencantados
em que silenciam as canções,
batem fracos, descarnados,
mancos de galope, os corações,
pouco mais somos que vorazes
acumuladores de sensações.


Eliseo Martinez
07/12/2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

28.




NÓS



Nós, que brotamos sós, colhendo o que com as mãos nuas plantamos e, abaixo da pele, códigos sagrados tatuamos,
marcados por sangrar pelo que visceralmente acreditamos.
Que temos sede de riso franco e fome de sentido ancho.
Que desconfiamos fortemente dos cômodos consensos
e dos que se habituaram a pastar nosso voto displicente.
Que nos despimos das causas por levá-las à alma,
e cuspimos na vida negociada do fim à chegada.
Que, desassossegados, corremos soltos, apartados das manadas, ignorando se o sentir intenso é dom, maldição
ou apenas fúria, na recusa de viver num vão.
Que "lutamos do outro lado da luta", negando pertencer,
ao preço da fuga dos infernos, no limbo, dissolver.
Que, creia, amamos crua e acidamente a ti e a toda a gente.
Estamos condenados a desafinar sempre que topamos
com o coro morno e manso dos contentes.
Estamos fadados a nos rebelar contra mordaças e correntes.
Semeadores de outras sementes.
Somos uma espécie de malditos lúcidos dementes...

Eliseo Martinez
03/12/2015