NÓS
Nós, que brotamos sós, colhendo o que com as mãos nuas plantamos e, abaixo da pele, códigos sagrados tatuamos,
marcados por sangrar pelo que visceralmente acreditamos.
Que temos sede de riso franco e fome de sentido ancho.
Que desconfiamos fortemente dos cômodos consensos
e dos que se habituaram a pastar nosso voto displicente.
Que nos despimos das causas por levá-las à alma,
e cuspimos na vida negociada do fim à chegada.
Que, desassossegados, corremos soltos, apartados das manadas, ignorando se o sentir intenso é dom, maldição
ou apenas fúria, na recusa de viver num vão.
Que "lutamos do outro lado da luta", negando pertencer,
ao preço da fuga dos infernos, no limbo, dissolver.
Que, creia, amamos crua e acidamente a ti e a toda a gente.
Estamos condenados a desafinar sempre que topamos
com o coro morno e manso dos contentes.
Estamos fadados a nos rebelar contra mordaças e correntes.
Semeadores de outras sementes.
Somos uma espécie de malditos lúcidos dementes...
Eliseo Martinez
03/12/2015
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