Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
51.
MORTE I
Mais do que no estado em que se vê aprisionado um homem, por seu drama pessoal, marcado, a condição trágica do ser humano reside na incômoda suspeita de sua própria e, para ele incompreensível, extinção que, vez por outra, exala por entre as fendas de sua alma, como o cheiro de enxofre das profundezas de um vulcão. Quem torna-se forte, se todos nascemos frágeis? Talvez, os que, entre nós, se vendo apartados de todos os demais, sem com o que ou quem contar, nesta fortu tenha a virtu de se procurar, passando com nós próprios a conversar para, ao cabo desta reflexão, separar-nos do reflexo, e a nós mesmos nos tornar. Isso, antes que a Vida, breve recreio de um infinito feito de nada, seja estrangulada, para nunca mais vir a ser experimentada. Refletir sobre a Morte pode nos posicionar à necessária distância de perspectiva para, deste novo ponto de vista, se olhar e, assim, grande parte de nossas aflições ver evaporar. No mais, nada mais há a fazer que viver, torcendo que ela se atrase neste andar, mas, com certeza, de nós não irá esquecer.
Eliseo Martinez
15.04.2016
50.
O FIO
No último quartel de nossa curta existência, enquanto espécie, enfiamos num fio de linguagem, como contas de mensagem, palavras que já existiam soltas. Neste fiar, passamos do indescritível pavor de um mundo assustador, à banalidade do medo balizado pelas histórias criadas. Logo, deram nomes aos vilões, edificando-se, entre nós, o teatro da religião e, nele, passam a encenar divinos astros, ovacionados pela multidão. Ontem, um povo quase novo, ocupado entre o plantio de azeitonas e o heroísmo audacioso, abala o Olimpo com o logos, definindo nossas sementes, depois, espalhadas pelos tagarelas subsequentes, de uma bota, descendentes. Velhos ventos retornados, por mil anos, tornam o Ocidente penitente. No embate entre treva e luzes, muitas vidas são ceifadas por outro fio, o fio da espada, auxiliado pelo calor das fogueiras e uma cruz sagrada. No próximo ato, ilumina-se o palco lentamente, e dos cantos lúgubres levantam-se homens rudes. Passam a ensaiar o mundo novo, imitando antigos semeadores de homens. O gozo foi tanto que acabamos por ocupar o lugar de deuses e santos. Nesta curva do caminho, fatigados, libertos dos senhores do passado, adormecemos e sonhamos os sonhos mais belos já sonhados por gente desta raça. Desvencilhados de deuses, vimos que todos podemos ser um deles. Se falará por muito tempo desse tempo em que homens ergueram templos a ideias e viveram à sombra de seus muros em frenéticas epopeias. Mas, como o inquieto gênio humano está sempre a produzir movimento, dividimos este todo que somos nas menores partes que nos tornamos. Oh, meu Deus! Como fico eu? Já sem céu, agora, tiram-me o chão firme em que piso, demolindo utopias que me guiam. Em debandada, saímos cada qual pelo mundo, que de tão pequeno tornado, tivemos de fazer um puxado, ampliando este nosso velho mundo real com um simulado mundo virtual. Bem lá longe, a léguas de distância, vejo outros, que estão a meu lado encostados. Eu, aqui, a falar de alhos; eles, ali, a entender por bugalhos. E, as contas já não contam naquele fio que, enfiadas, emprestavam sentido ao absurdo da vida, nos protegendo do vazio...
Eliseo Martinez
13.04.2016
49.
A CEGUEIRA DA VISÃO
As coisas ditas importantes,
talvez não o sejam, de fato,
por sua própria importância.
Elas podem inflar feito gás,
ocupando o espaço vazio,
que dentro de um peito se traz.
Inchar na obstinada vontade de,
sendo, estando ou tendo menos,
sermos, estarmos ou termos mais.
Por outro lado, seu fulgor pleno
pode não ser mais que o reflexo,
que parte como um raio desconexo
de uma região de nós mesmos,
em que, sem um querer, se acumularam
resíduos de poesia de toda uma vida,
com que, e apesar de todo o mal,
polvilhamos o que nos cerca,
como o confeiteiro polvilha de açúcar
o bolo mais desejado da festa.
Ao procurar o que foi importante,
podemos topar com seu estado de finado,
agora, num corpo seco, atualizado,
da alma apartado, atirada num beco.
Com talento ou não, todos somos artistas.
Podendo ou não, teimamos dizer como
deuses: "Lázaro, levanta-te e anda".
Afinados ou não, todos tocamos na banda.
Meio sambistas, meio fadistas.
A seu modo, todos passistas...
Eliseo Martinez
08.04.2016