O FIO
No último quartel de nossa curta existência, enquanto espécie, enfiamos num fio de linguagem, como contas de mensagem, palavras que já existiam soltas. Neste fiar, passamos do indescritível pavor de um mundo assustador, à banalidade do medo balizado pelas histórias criadas. Logo, deram nomes aos vilões, edificando-se, entre nós, o teatro da religião e, nele, passam a encenar divinos astros, ovacionados pela multidão. Ontem, um povo quase novo, ocupado entre o plantio de azeitonas e o heroísmo audacioso, abala o Olimpo com o logos, definindo nossas sementes, depois, espalhadas pelos tagarelas subsequentes, de uma bota, descendentes. Velhos ventos retornados, por mil anos, tornam o Ocidente penitente. No embate entre treva e luzes, muitas vidas são ceifadas por outro fio, o fio da espada, auxiliado pelo calor das fogueiras e uma cruz sagrada. No próximo ato, ilumina-se o palco lentamente, e dos cantos lúgubres levantam-se homens rudes. Passam a ensaiar o mundo novo, imitando antigos semeadores de homens. O gozo foi tanto que acabamos por ocupar o lugar de deuses e santos. Nesta curva do caminho, fatigados, libertos dos senhores do passado, adormecemos e sonhamos os sonhos mais belos já sonhados por gente desta raça. Desvencilhados de deuses, vimos que todos podemos ser um deles. Se falará por muito tempo desse tempo em que homens ergueram templos a ideias e viveram à sombra de seus muros em frenéticas epopeias. Mas, como o inquieto gênio humano está sempre a produzir movimento, dividimos este todo que somos nas menores partes que nos tornamos. Oh, meu Deus! Como fico eu? Já sem céu, agora, tiram-me o chão firme em que piso, demolindo utopias que me guiam. Em debandada, saímos cada qual pelo mundo, que de tão pequeno tornado, tivemos de fazer um puxado, ampliando este nosso velho mundo real com um simulado mundo virtual. Bem lá longe, a léguas de distância, vejo outros, que estão a meu lado encostados. Eu, aqui, a falar de alhos; eles, ali, a entender por bugalhos. E, as contas já não contam naquele fio que, enfiadas, emprestavam sentido ao absurdo da vida, nos protegendo do vazio...
Eliseo Martinez
13.04.2016
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