A CEGUEIRA DA VISÃO
As coisas ditas importantes,
talvez não o sejam, de fato,
por sua própria importância.
Elas podem inflar feito gás,
ocupando o espaço vazio,
que dentro de um peito se traz.
Inchar na obstinada vontade de,
sendo, estando ou tendo menos,
sermos, estarmos ou termos mais.
Por outro lado, seu fulgor pleno
pode não ser mais que o reflexo,
que parte como um raio desconexo
de uma região de nós mesmos,
em que, sem um querer, se acumularam
resíduos de poesia de toda uma vida,
com que, e apesar de todo o mal,
polvilhamos o que nos cerca,
como o confeiteiro polvilha de açúcar
o bolo mais desejado da festa.
Ao procurar o que foi importante,
podemos topar com seu estado de finado,
agora, num corpo seco, atualizado,
da alma apartado, atirada num beco.
Com talento ou não, todos somos artistas.
Podendo ou não, teimamos dizer como
deuses: "Lázaro, levanta-te e anda".
Afinados ou não, todos tocamos na banda.
Meio sambistas, meio fadistas.
A seu modo, todos passistas...
Eliseo Martinez
08.04.2016
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