48.
DENSO
Denso! É do que me acusam. Mas será, mesmo,
que temos de mutilar-nos, curando-nos da inquietude,
tornados leves por contornar as próprias lacunas,
a seguir sem o peso, quer das respostas, quer das dúvidas,
que é o preço a pagar pelas incômodas perguntas postas?
Quase dá pra admirar esses trapezistas a se equilibrar
sobre a corda esticada entre as fachadas,
sem habitar a própria casa, deixada abandonada.
Ao faltar-me o pé, ao cabo da última pugna, escolho tombar como saco amontoado, sem rede ou cuidado,
a ter de borboletear casual, com performance de artista,
mantendo a graça habitual, num derradeiro esforço
de pertencer, no afã de parecer normal e, mais tarde,
no escuro, só, guardado dos olhares, ganir feito animal.
Desculpem-me declinar novamente deste teatro horripilante.
Deve ser sina de andarilho acostumado a tropeçar pelas trilhas.
À plateia, mais uma vez, mando à merda, com o afeto que me
resta, na esperança de que, cada um dos presentes em festa, encontre coragem suficiente para aceitar os riscos da viagem e, ao voltar das voltas pelo mundo, belo e selvagem,
corpo ferido, paz na alma,
tome posse de sua morada, agora, salva...
ao lado de quem nos lamba as feridas
que confirmam nossas vidas.
Eliseo Martinez
29.03.2016
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