SEMANA QUEBRADA
Surgida a brecha, quebra-se a semana, sem pressa.
Montado num animal alaranjado, de aço cromado,
como se indomável besta fêmea fosse,
mas carecendo de gênero, com certeza, seria macho,
saí ontem pela tarde, sem destino que me aguardasse.
Só o vento na cara e o rosnar rouco da Harley,
numa dessas tréguas da mente,
em que se aguçam os sentidos
e explodem nenúfares pelo corpo da gente,
como os que surgem em um braço de rio selvagem.
Mil e seiscentas cilindradas, adrenalina,
uma estrada abandonada, alma tranquila.
O som de esteira do motor com o assobio dos ares
compõem a desassossegada balada estradeira.
Cheiro de mato úmido ladeando o asfalto rachado;
olhar que surfa no giro das curvas reclinadas;
mãos firmes seguram a besta que vibra e;
na boca, o gosto seco do ar fresco.
Mas, dos sentidos, é a intuição que doma
os quatrocentos quilos do animal de metal.
Viaja-se, assim, duas vezes em uma só viagem.
Entre as árvores, bicho encilhado, apeado e espreguiçado,
roupas na relva atiradas, dentro d'água, livres braçadas.
O silêncio escutado nasce do desterrado ruído humano.
Ressurge a liberdade como uma bem vinda espécie de metástase.
Dia claro, ensolarado, da lua acompanhado;
o calor ameno anima o voo rasante das aves.
Nada mais simples do que a verdade simples das Harleys.
Nestes recreios, a vida dura pode ser leve
como uma miragem que com as mãos se pegue.
EM TEMPO:
Se ontem peguei a estrada desgarrado,
eu mais o tal animal domado,
hoje, galopa a meu lado
uma amazonas também nele montado,
e a quatro braços são as braçadas
nas mesmas águas dadas.
Semana quebrada !
Eliseo Martinez
16.03.2016
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