Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 29 de março de 2017

119.

Esquecimento


Pobre musa Mnemosyne, que dominou sob a égide da memória acima de deuses, homens e suas histórias. 
Deve ter enlouquecido com o testemunho de tudo vivido,
para jamais ter permissão de ser esquecido.
E, quanto a nós, que seriamos sem a disfunção "esquecimento"?
Talvez, vales a transbordar os mais terríveis sentimentos.
Como uma neblina fria, essa amnésia se debruça sobre a vida, encobrindo reminiscências do que nos alimentou a consciência, enquanto filtra boa parte do que envenenou nossa existência.
Um bilhete de dois lados a compensar fatos passados?
Se for, é passagem só válida para a primeira etapa da viagem, posto que as sortes, desde o princípio, foram lançadas.
Pode-se viver sem as lembranças do que nos encheu a alma;   não com dores insolúveis, como feridas que não curam.
Se existe alguma paz no conturbado mundo humano,
é a custa da propina paga pelo que é mantido oculto,
tornado baço sem, no entanto, apagar o insólito de nossos rastros.
Dizem que os anos trazem, além das dores da carne,
os males da culpa, provando que a disfunção que oculta é da mesma natureza do timoneiro, que não aponta a proa sempre ao mesmo porto que a acolha.
O que torna os velhos menos cegos do que antes eram é o hálito gélido que, pouco a pouco, se habituam a sentir na nuca crua, fazendo cair os véus do esquecimento ao se avizinharem da enseada que lhes espera ao cabo da jornada.
A outros, menos metafísicos, mais contadores, poderia parecer que o resto da conta é cobrado ao fim da janta,
acrescida da gorjeta devida às Moiras, antes do fio ser cortado,
já desde à concepção assente e acertado.

Eliseo Martinez
29.03.2017

domingo, 26 de março de 2017

118.

Verdades que se Inventam


Se tu soubesses
das tantas vezes que repisei
lugares já pisados por nós dois,
tu não saberias que meus passos
sobre os dados no passado,
não são por ti ou, mesmo,
pelo que teria restado
de um nós desmoronado.
O chão que piso e piso de novo,
piso à caça de mim mesmo.
Fazendo-me indiferente
a ausência tua que,
como um sopro,
lá se encontra.

Eliseo Martinez
26.03.2017

quarta-feira, 22 de março de 2017

117.


Hoje, poderia ter passado por um ele e ela,
mão na mão, apaixonados.
Mas, não passei.
Passei por ninguém,
com ou sem olhos doidos
postos em alguém.
Invisível, me vi entre os que, acho, lá estavam.
Mas, havia nada, nem mesmo eu.
Hologramas, era do que se tratava.
Imagens a que faltavam as carnes, as almas,
olhares gratos um no outro
e tudo o mais que valha,
mesmo que pouco.
Dos sete sóis,
nenhum se fez mais que a chuva;
das sete, uma única meia lua
iluminava com brilho pouco
o chão sujo e úmido da rua.
Esse vazio me fez lembrar de ti.
Das vezes sem conta que taças
tilintaram nosso encontro,
e nós, enfim, completos juntos,
a criar sentidos,
que só podem os, pela vida, seduzidos.
E fomos...
A ruína das pontes derrubadas
não me impede, morte à morte,
de olhar a margem oposta em que ficastes...
Só então, quebro o selo do segredo,
abandonando-me à falta que me fazes
e, revendo-me vencido,
reconheço a dor deste degredo.

Eliseo Martinez
22.03.2017

domingo, 19 de março de 2017

116.

S.O.S  Arte


Se deus está morto, onde encontrar salvação que me faça menos torto? Quem sabe, num borrão, à pele de texturas cruas entre prismas cúbicos que se intrusão, e todos nós a criar juntos?
É, já, desnecessário apartar da cabeça a orelha se me foi revelado que a salvação pode estar na obra de arte como, tardiamente, reconheceu Van Gogh, extraindo a ferros de seu cotidiano de tormentos, o belo que o fez vencer o tempo.
A ideia do belo é generosa. Materializa-se em coisas, atos, paisagens, lugares, estados de alma, olhares. Pode nascer do gesto humano ou naturalmente estar presente no mundo em que pisamos.
Pensar a beleza, às vezes, pode nos levar a querer saber da arte. Sujeita a nuances étnicas, possibilidades técnicas e presunções estéticas, a arte, com frequência, é elevada a um fazer de deuses, mesmo sendo coisa de homens, a despeito de os homens terem inventado os deuses. Bom exemplo, é o fado do talento que, não raro, menospreza formação, técnica e sentimento.
É preciso fazer descer a arte à terra, tornando-a um fazer do comum dos homens, mais do que lhe proporcionar algum passivo prazer contemplativo, tornar a arte parte da cura frente ao mal que se avoluma. Ou devemos crer que, para além da oferta de produtos, vivemos tempos menos brutos? Quem sabe, mais felizes, em meio as possibilidades abertas por nossos celulares, nesta era já intitulada de pós-verdade?
O julgamento do ser da arte, há muito, escorreu do cercado dos conceitos engendrados por filósofos e dos preceitos dos artistas que a fazem. O veredito final é dado pelas oscilações de humor de um juiz cego e sem glamour que atende por mercado.
Mas, o que mereceria o legítimo nome de arte?
Melhor responder essa questão a partir de suas premissas.
Diferente da beleza, não existe arte na natureza, ela é fruto da intervenção humana, uma mediação sob influência da cultura.
Ela não mais se submete a metafísica ou escola, como vigorou da Idade Clássica à Modernidade, mas à historicidade do tempo e à pluralidade do espaço, tanto em forma, quanto em significado - ou não - do conteúdo que informa.
Ela parte da vontade de criação de um agente singular, que se realiza na singularidade de seu ato de criar. Ou seja, a repetição neutraliza a obra enquanto arte, assim como autor específico, mesmo desconhecido, lhe é exigido.
Hoje, podemos entender arte como a comunicação de algo que parte de uma subjetividade para ser interpretado por cada subjetividade que o confronta, expressão essa que se serve, com ampla liberdade, das mais diversas plataformas: da tela à pedra, do áudio ao vídeo, da pele à parede do prédio... Daí o significado atual da obra de arte, que rompe com o movimento unidirecional autor-observador, para se espraiar infinitamente na dialética provocador-intérprete. 
A passividade do público ao admirar o "talento" do artista é substituída pelas inesgotáveis leituras feitas pelos diversos provocados, tornados sujeitos coautores, cada um recompondo a obra com sua própria bagagem existencial, pré-consciente, sensibilidade e história de vida, atribuindo sentidos diversos ao mesmo artístico objeto.
Manifestações como o naturalismo e o retratismo perdem potência artística para emergirem expressões que se abrem ao leque vasto das interpretações, a exemplo das que se valem da plataforma de instalações.
O traço bem feito e acabado esgotou-se enquanto critério inconteste da obra de arte. Isso, em parte, como negação da tecnicização trazida pelo avanço tecnológico mas, também e, principalmente, em decorrência da percepção da crescente complexidade de nossas condições sociais e psicológicas de existência entre os demais.
A revolução trazida pela decomposição da forma expandiu enormemente os horizontes da arte, agora, redefinida pelo ponto de vista exclusivo do sujeito que observa e interpreta o que lhe é apresentado, não raro, superando em muito, as pretensões conscientes do próprio autor. Este primeiro criador que, diga-se de passagem, jamais dominará completamente o sentido de sua criação, uma vez que ele repousa entranhado no abismo inacessível de seu inconsciente.
Mais, ainda, como a percepção do observador - agora, também, promovido a condição de coautor - altera-se em função de suas vivências ampliadas no tempo acelerado, o significado atribuído por ele à obra de arte, está sujeito a constantes ressignificações.
Mais do que a experiência de nos deparar com o belo, preso na parede a prego e golpes de martelo, a salvação trazida pela obra de arte reside na energia gerada pelo movimento que se estabelece quando nos pomos em seu encalço.
Busca, esta, grávida de sentidos e remédio eficaz para inúmeros tédios, fazendo voltar para trás da tela hordas de figurantes da verdadeira série "Walking Dead".

Eliseo Martinez
19.03.2017

domingo, 12 de março de 2017

115.

Um bairro chamado Tristeza


Querem rebatizar o bairro de minha infância.
Verdade, não tem nome cool, tipo Alegria, Paraíso, Redenção. Nem mesmo Esperança, ele se chama.
Mas, o que seria do blues se o quisessem chamar de happy? ou fanny?, apesar do lamento com que nos toca e, ao sermos tocados por ele, o bem que nos provoca. Algum dia seremos loucos o suficiente para dispensar nossos unguentos, mas ainda falta um pouco.
Se o nome não gera o sentimento, precisamos ter do que chamar os estados vários da alma que nos fazem como somos, mesmo os mais sombrios dentre eles, sem o que restaria o incômodo das lacunas, inomináveis, pondo-nos mais distantes de nós mesmos.
Perderíamos um modo de nos lembrar que a tristeza também existe, e nem por isso deveríamos sucumbir a ela ou nos punir por sua obstinada insistência. Antes, para saber que a tristeza que está hoje, em nós, amanhã não tem de estar. É algo que nos visitará, queiramos ou não, sem ter de simplesmente ficar.
Ter consciência do que nos causou dor, só pode fazer valer os momentos em que estamos imersos na escassa paz.
Apesar do nome, nunca liguei meu  bairro ao que é triste. Foi um lugar onde eu, criança, aprendi a jogar taco, rolar bolita de gude, rodar pião, empinar pandorga, desafiar as alturas do alto do ingazeiro, brincar de pega ladrão. Depois da escola, cruzar a praça e o jogo de bola. Quando não me via em misteriosas incursões pelos bosques brancos, floridos de véus-de-noiva, animados pelo silencioso alvoroço das borboletas de asas tingidas de preto e amarelo - sem esquecer das alaranjadas, ainda mais belas -, para onde, aos sete anos era levado, mão no pulso, pela enorme menina de oito, bem mais sabida que o perplexo menino, dividido entre o medo, a curiosidade e algo inexplicável, que só me permitia confessar no confessionário: "padre, fiz coisa feia". Era a senha pra fazer de novo.
Do lugar de minha infância, também restaram, inevitáveis tristes retalhos, esmaecidos pelo tempo ido. No entanto, foi onde aquele menino que fui, tocou vezes sem conta, a cauda luminosa de uma inocente felicidade, que sempre ao ser evocada, suaviza o que nos traz o gris da idade.

Eliseo Martinez
12.03.2017