Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 12 de março de 2017

115.

Um bairro chamado Tristeza


Querem rebatizar o bairro de minha infância.
Verdade, não tem nome cool, tipo Alegria, Paraíso, Redenção. Nem mesmo Esperança, ele se chama.
Mas, o que seria do blues se o quisessem chamar de happy? ou fanny?, apesar do lamento com que nos toca e, ao sermos tocados por ele, o bem que nos provoca. Algum dia seremos loucos o suficiente para dispensar nossos unguentos, mas ainda falta um pouco.
Se o nome não gera o sentimento, precisamos ter do que chamar os estados vários da alma que nos fazem como somos, mesmo os mais sombrios dentre eles, sem o que restaria o incômodo das lacunas, inomináveis, pondo-nos mais distantes de nós mesmos.
Perderíamos um modo de nos lembrar que a tristeza também existe, e nem por isso deveríamos sucumbir a ela ou nos punir por sua obstinada insistência. Antes, para saber que a tristeza que está hoje, em nós, amanhã não tem de estar. É algo que nos visitará, queiramos ou não, sem ter de simplesmente ficar.
Ter consciência do que nos causou dor, só pode fazer valer os momentos em que estamos imersos na escassa paz.
Apesar do nome, nunca liguei meu  bairro ao que é triste. Foi um lugar onde eu, criança, aprendi a jogar taco, rolar bolita de gude, rodar pião, empinar pandorga, desafiar as alturas do alto do ingazeiro, brincar de pega ladrão. Depois da escola, cruzar a praça e o jogo de bola. Quando não me via em misteriosas incursões pelos bosques brancos, floridos de véus-de-noiva, animados pelo silencioso alvoroço das borboletas de asas tingidas de preto e amarelo - sem esquecer das alaranjadas, ainda mais belas -, para onde, aos sete anos era levado, mão no pulso, pela enorme menina de oito, bem mais sabida que o perplexo menino, dividido entre o medo, a curiosidade e algo inexplicável, que só me permitia confessar no confessionário: "padre, fiz coisa feia". Era a senha pra fazer de novo.
Do lugar de minha infância, também restaram, inevitáveis tristes retalhos, esmaecidos pelo tempo ido. No entanto, foi onde aquele menino que fui, tocou vezes sem conta, a cauda luminosa de uma inocente felicidade, que sempre ao ser evocada, suaviza o que nos traz o gris da idade.

Eliseo Martinez
12.03.2017

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