Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 19 de março de 2017

116.

S.O.S  Arte


Se deus está morto, onde encontrar salvação que me faça menos torto? Quem sabe, num borrão, à pele de texturas cruas entre prismas cúbicos que se intrusão, e todos nós a criar juntos?
É, já, desnecessário apartar da cabeça a orelha se me foi revelado que a salvação pode estar na obra de arte como, tardiamente, reconheceu Van Gogh, extraindo a ferros de seu cotidiano de tormentos, o belo que o fez vencer o tempo.
A ideia do belo é generosa. Materializa-se em coisas, atos, paisagens, lugares, estados de alma, olhares. Pode nascer do gesto humano ou naturalmente estar presente no mundo em que pisamos.
Pensar a beleza, às vezes, pode nos levar a querer saber da arte. Sujeita a nuances étnicas, possibilidades técnicas e presunções estéticas, a arte, com frequência, é elevada a um fazer de deuses, mesmo sendo coisa de homens, a despeito de os homens terem inventado os deuses. Bom exemplo, é o fado do talento que, não raro, menospreza formação, técnica e sentimento.
É preciso fazer descer a arte à terra, tornando-a um fazer do comum dos homens, mais do que lhe proporcionar algum passivo prazer contemplativo, tornar a arte parte da cura frente ao mal que se avoluma. Ou devemos crer que, para além da oferta de produtos, vivemos tempos menos brutos? Quem sabe, mais felizes, em meio as possibilidades abertas por nossos celulares, nesta era já intitulada de pós-verdade?
O julgamento do ser da arte, há muito, escorreu do cercado dos conceitos engendrados por filósofos e dos preceitos dos artistas que a fazem. O veredito final é dado pelas oscilações de humor de um juiz cego e sem glamour que atende por mercado.
Mas, o que mereceria o legítimo nome de arte?
Melhor responder essa questão a partir de suas premissas.
Diferente da beleza, não existe arte na natureza, ela é fruto da intervenção humana, uma mediação sob influência da cultura.
Ela não mais se submete a metafísica ou escola, como vigorou da Idade Clássica à Modernidade, mas à historicidade do tempo e à pluralidade do espaço, tanto em forma, quanto em significado - ou não - do conteúdo que informa.
Ela parte da vontade de criação de um agente singular, que se realiza na singularidade de seu ato de criar. Ou seja, a repetição neutraliza a obra enquanto arte, assim como autor específico, mesmo desconhecido, lhe é exigido.
Hoje, podemos entender arte como a comunicação de algo que parte de uma subjetividade para ser interpretado por cada subjetividade que o confronta, expressão essa que se serve, com ampla liberdade, das mais diversas plataformas: da tela à pedra, do áudio ao vídeo, da pele à parede do prédio... Daí o significado atual da obra de arte, que rompe com o movimento unidirecional autor-observador, para se espraiar infinitamente na dialética provocador-intérprete. 
A passividade do público ao admirar o "talento" do artista é substituída pelas inesgotáveis leituras feitas pelos diversos provocados, tornados sujeitos coautores, cada um recompondo a obra com sua própria bagagem existencial, pré-consciente, sensibilidade e história de vida, atribuindo sentidos diversos ao mesmo artístico objeto.
Manifestações como o naturalismo e o retratismo perdem potência artística para emergirem expressões que se abrem ao leque vasto das interpretações, a exemplo das que se valem da plataforma de instalações.
O traço bem feito e acabado esgotou-se enquanto critério inconteste da obra de arte. Isso, em parte, como negação da tecnicização trazida pelo avanço tecnológico mas, também e, principalmente, em decorrência da percepção da crescente complexidade de nossas condições sociais e psicológicas de existência entre os demais.
A revolução trazida pela decomposição da forma expandiu enormemente os horizontes da arte, agora, redefinida pelo ponto de vista exclusivo do sujeito que observa e interpreta o que lhe é apresentado, não raro, superando em muito, as pretensões conscientes do próprio autor. Este primeiro criador que, diga-se de passagem, jamais dominará completamente o sentido de sua criação, uma vez que ele repousa entranhado no abismo inacessível de seu inconsciente.
Mais, ainda, como a percepção do observador - agora, também, promovido a condição de coautor - altera-se em função de suas vivências ampliadas no tempo acelerado, o significado atribuído por ele à obra de arte, está sujeito a constantes ressignificações.
Mais do que a experiência de nos deparar com o belo, preso na parede a prego e golpes de martelo, a salvação trazida pela obra de arte reside na energia gerada pelo movimento que se estabelece quando nos pomos em seu encalço.
Busca, esta, grávida de sentidos e remédio eficaz para inúmeros tédios, fazendo voltar para trás da tela hordas de figurantes da verdadeira série "Walking Dead".

Eliseo Martinez
19.03.2017

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