114.
A Paz de um Dia
Manhã de sol ameno,
no canto da praia do Zelo,
o que se deu, deu-se como devia,
sem medo, sem serventia,
coisa crescida a nada de pressa e tempo cuidado,
como bem se sabia entre o povo da aldeia.
Bem acima da cena,
em imprevista trajetória,
astros errantes se alinharam em foice
e desejos contidos se incendiaram ao longe.
No leito de pedra alisada a água, sal e vento,
um fio escarlate, ainda quente,
escorria na laje, lentamente.
Jovens enamorados, deitados lado a lado
com olhos no azul dos ares,
jurados um do outro
e já aquietados de tudo,
no afloramento das rochas,
defloravam-se a pouco,
suspensos na harmonia redonda de um dia
que só se percebia a mover
no tombo manso das ondas,
no sobrevoo das gaivotas em bando
e em dois corações despassarados, revoando.
Ainda que fossemos filhos do copeiro dos deuses,
dos tantos que inventamos pra por a correr
um único demônio a serviço deles,
de dias escoados à sombra curva das esferas,
se fariam os dias que nos cabiam,
como os consumados pelos amantes em festa.
Eliseo Martinez
24.02.2017
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