102.
Da Natureza do Real
É quase que automático. O exercício de parar e refletir nos transforma em insanos jardineiros do absurdo, remexendo campos arados por sólidos concertos inventados.
Dentre tudo que engendramos, por certo, o que menos se revela a nós, criadores, é a substância íntima do real, esse invento gravado quadro à quadro no filme rodado na mente ativa dos semelhantes, repassado ao contido e ao continente circundante.
O que é a realidade, afinal, que escapa à inconteste tangibilidade do tijolo, sabido de massa, peso e contorno?
Provavelmente, o resto de ser que lhe resta do projeto. Uma produção do olhar; de cada olhar de um feixe de olhares. Uma representação singular, entre as múltiplas que se movimentam com passo incerto pelo espaço, sob ventos do tempo, a esmo, soprados. Serpentes de ilusórias certezas a rastejar pelo chão acidentado da História, alimentadas a frágeis verdades extraídas dos mitos da hora.
O não-ser do real nos condena a reinventá-lo para sempre, denunciando o indomável caos que habita o coração da ordem imaginada.
Nos convém acreditar num piso sob os pés, ladeado pelo corrimão à mão.
Deste velho dilema, já nos idos de mil e seiscentos, Calderón de la Barca, insultando o bom senso da época com "La Vida és Sueño", fez o que fez: mais que ciência, arte.
Na ousadia de se deixar inquietar ao confrontar os sinais, partiu à busca e ver mais. Fez-se visionário como os gregos que o antecederam e os tantos outros que cogitaram sobre a natureza mutante da realidade, na obstinada crença numa verdade outra, mais sofista que socrática.
Época instigante, a nossa, que nos leva a tocar a complacente tensão superficial da pele líquida do real.
Alguém dirá que a pulsão da morte banalizará. Alguém dirá que, fenecidas as flores do mal, formidáveis conquistas do conhecimento abrirão portais ao entendimento.
Por que não? Que seja! Mais nos serve acreditar que, ainda que errantes caminhantes, caminhamos eventualmente para frente...
Das rupturas todas que o devir nos reserva, a ruína da crença nos consensos - onde verdade nada mais é do que a perene insuficiência do acordo possível entre o irreconciliável das partes, ao comando da desproporção das sortes - talvez fermente o suficiente para pôr em questão o sentido de tudo, escancarando, assim, os tais portais de um radical novo mundo.
Eliseo Martinez
02.02.2017
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