106.
Produções humanas: o afeto
Não, os homens não inventaram essa forma
de se fazerem melhores.
O afeto precede a espécie, não sendo estranho
nem mesmo ao mundo de carnificina das feras.
Sempre há o que ver, e enternecer,
nos jogos das fêmeas com os filhotes;
o voo em par dos pássaros;
o aninhar dos gatos do mato...
Agrados de seres, por vezes, selvagens,
produto popularizado pelos canais pagos.
Mas, é claro, se não inventamos o afeto,
o reinventamos, por certo,
deitando nele nosso toque,
enfeitado a demasia,
ornado de renda e brocado,
inchado de fantasias.
Me ocorre se com os bichos
nãos se passe melhor que isso.
Pensamento tolo, esse, sem eira ou serventia!
Será, mesmo? Vejamos.
Que mais é o icônico amor romântico
do que o encaixotamento dos apaixonados amantes?
Como pode se dar que o melhor em nós,
encerre, em si, o que mais nos dói?
Se não nos fartássemos no banquete dos afetos,
não padeceríamos de amores desfeitos,
sobrevivendo na contingência de restos.
Não morreríamos vezes sem conta em um único dia
sob o peso medonho da perda
ou, quando a sua procura,
nós mesmos nos perdemos.
Sem contar o anverso do verso
contido nos sorrisos fingidos,
agrados falsificados,
flores eternas, de plástico pintadas,
tresloucados gozos não gozados,
nas declarações de amor adulteradas,
que são facas cravadas às costas
daquele que te põe alma e dentes à mostra.
Eliseo Martinez
08.02.2017
Nenhum comentário:
Postar um comentário