Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 28 de abril de 2017

127.

Noite Sem Sorte


O experiente jogador, vendo tamanho desacerto
entre vermelhos e pretos
a rodopiarem no frenesi da roleta,
põe de lado as fichas menores
que lhe restam sobre a mesa.
Sabia que não seria aquele, seu dia.
Desde o fundo dos tempos,
homens como este vivem dos favores
no giro da Roda das Moiras;
mas, também por elas, vezes sem conta,
foram despidos de tudo e mais um pouco.
Caprichosas, eram as três senhoras idosas,
àqueles dias idos, incensando com sonhos,
as lágrimas e os risos.
O jogo dos acasos, desde que foi criado,
tende a beneficiar o dono da casa,
que já não é heleno, tampouco romano.
Sob nova direção, o Cassino Destino é comandado,
agora, pelo diabo e seu mais velho sócio,
que lhe está acima, mas não mostra a cara
no rentável negócio.
De fato, neste caso,
a curiosidade não vai matar qualquer gato.
Em Sua ronda diária,
Ele se veste de medo, melancolia e tédio
para ver se tudo anda bem pelo prédio.

Eliseo Martinez
28.04.2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

126.

Eternos serão os retornos ?


Infelizmente não me foi dado crer em ser superior diferente daqueles das aventuras de Flash Gordon, saídos dos gibis empoeirados de um insano pai atormentado.
Tampouco, algum crédito dispenso a influência dos astros sobre a má sorte dos homens, desejosos que somos de forças mais nobres que nos supervisionem a vida pobre, os amores e a morte.
Nostradamus falava em fenômenos que se sucedem no tempo e no espaço, previsíveis sob a cuidadosa análise de traços geométricos riscados nos mapas. Outro sintoma da vontade crônica que todos temos de ocupar o trono abandonado pelos criadores em fuga ao se depararem com as criaturas.
Testemunhamos o cortejo das modas, como o popular biorritmo, dos idos 70; o engodo dos Ury Guellers, entortadores de colheres; gurus dos mais diferentes; cartomantes; videntes; emissários fantasmas de verdades inefáveis e o fim dos tempos à virada do milênio.
E, a pairar sobre tudo, a sombra das religiões, fortalecendo ancestrais fraquezas de indefesas multidões.
Muito do imaginário do desumano mundo humano é feito de crendices, superstições e mitos, numa miríade de apelos sobrenaturais, esperançosos de algum mísero alento a nossas existências banais.
No entanto, a todo o momento, deparamos com aleatórios eventos, que parecem girar no rastro da órbita traçada por algum misterioso compasso.
Coincidências que eriçam os sentidos, mexendo com a sensatez do mundo em que piso, e que tento interpretar com lentes lógicas, distantes das mais exóticas respostas.
Falo dos desconcertantes períodos que alternam o mal que nos rasga a carne e o bem que nos beija a face.
Falo de estreitas afinidades entre os que sonham os mesmos sonhos, pensam pensamentos que estão a ser pensados pelo outro.
Falo de ciclos que nos conduzem a lugares já vividos, sem que isso tenha sido, por nós, decidido.
Falo dos sentidos que nos recapitulam, trazendo à tona cores, cheiros, texturas, sons e sabores que a muito se foram.
Tendo a crer na poesia que canta o retorno de Ulisses aos braços de sua Penélope amada, superados os medonhos contratempos pela astúcia da razão do herói mítico, fundando a mais antiga versão do "eterno retorno", mais tarde considerado por Nietzsche e Proust, cada um na genialidade de seus sonhos.
A volta à Tristeza, bairro de minha infância, de onde guardo registros das primeiras alegrias de criança, é exemplo disso.
Como é, também, o retorno, desde o fundo dos antanhos, ao "Julinho", tão estruturante para este, então, jovem errante, onde hoje, fala de filosofia aos novos jovens, entre a angústia do que se tornou a Escola e o carinho com que a viu forjar sua história.
Outro, ainda, são pessoas que viveram meu passado para emergirem no presente, como que saídas do nada.
É como se a vida, de alguma forma modificada, se repetisse numa estranha órbita espiralada.
A busca de algum vínculo oculto entre tantos acasos sobreviveria alheia ao estreito círculo do credo raso?
O que parece certo é que, ao canto de sereia que nos acomoda às fantásticas cantilenas, poucos se sabe das respostas verdadeiras.
Las brujas, por supuesto, no las creo, más dicem que por ai, entre nossotros, alegremente passean...

Eliseo Martinez
26.04.2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

125.

Um Pequeno Fetiche e Deus


Somos seduzidos por coisas de todo o tipo.
Assim, um fetiche inocente me acompanha
desde o alvorecer adolescente,
fazendo com que retorne, vezes sem conta,
à fronteira interna,
riscada à água na terra
pelo Mampituba,
do nativo tupi, que primeiro a ocupa.
Caipirinha e siri na casca,
são o néctar e a ambrosia
que compartilho com quem,
por ventura, está a fazer-me companhia.
Fora isso, só o fluxo das águas fundas do rio
para lembrar que tudo passa,
nada repousa imóvel em qualquer parte.
A eternidade do movimento
é o mais próximo da ideia de deus
a que é capaz meu imperfeito entendimento.

Eliseo Martinez
21.04.2017 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

124.




-  Sabe o que somos?
-  Homens!
-  Não seja tolo, isso é só um nome,
como se dá aos lugares,
às mesas e a qualidade dos repolhos.
Somos grãos de tempo cadentes
num vasto espaço entre os astros e nada.
-  Mas, eu... Cadê você?
Putz! Se foi...

Eliseo Martinez
18.04.2017
123.

Pós - Niilista


Ao abandono de imagens que revoam entorno, sorteadas ao acaso entre tantas amontoadas no armário das memórias imaginadas, o sujeito, ali sentado, cogita no que vale a vida, esse estranho filamento enfiado de fragmentos que revolucionam no ar pesado.
Evento grávido de perdidos e achados, partidas e chegadas,
coalhado de beleza, tomado por metástases de melancolia e medo, sobre o fundo de mal-estar em que vivemos.
Quando tudo desacelera e as personas com que vai ao mundo,
desatam do rosto e caem por terra, ele dá de cara com a
própria face nua que já não contava como sua.
Até então, oculta no breu dos labirintos que se enraízam pela mente, à falta de alma que os inunde de luz inteiramente,
manifesta-se uma presença que o resume com solidez de essência.
A minúscula versão da singularidade primeira replica e desfaz as ilusões de um eu ateu divinizado, ao centro do universo postado, cheio de olhos gulosos arregalados, agora, reconfigurados a rastrear regiões do espaço interior, tão remotas quanto a estrela mais distante já vista por olho de bicho humano.
Sob as esferas que giram lá fora, alheio as sombras de credos a dentro e, acima de tudo, saciado das fomes, desassossegos e amores, nada mais define este homem que a espera indefinida que, em silêncio, o consome.
Posicionado ante si mesmo e mais nada, sem o quê o distraia da angústia do que o destino reserva à toda a gente, o tal homem continua a mover-se em pensamento.
Somos todos feitos de uns poucos grãos de tempo, mal ajuntados pelo insólito acaso de um momento.
Neste preciso instante, e em nenhum outro, ele admite para si o que já não pode omitir, "o que luta não compreende" e, abdicando de estar, se reclina nas redes da paz para ser, simplesmente, antes de apenas ausência.
É quando quase se deixa levar, escoado pelos poros dilatados do ar.
Na contramão, o instinto responde-lhe de imediato e fios de apego o fazem ficar.
A pulsão de existir nos prende a caminhos já percorridos, num apelo mais forte do que o imprevisto salto no limbo desconhecido.
Apesar do redondo do todo, uma vez acalentado no mais belo dos sonhos sonhado, só restam pedaços espalhados por todo lado.
Afeiçoado ao lugar, reorienta o curso e, ciente do custo a ser pago, resigna-se a girar parado.
O gozo do homem sentado no único banco da pequena estação é feito dos comboios de palavra que passam, fazendo das ideias que levam e trazem, passatempo, até que o seu passe, e ele com ele mesmo, bem ali, vendo...

Eliseo Martinez
18.04.2007

122.

Elogio aos Pares

E para não esquecer quem somos,
somos os que despertam ao lado,
andam pelas vielas do mundo
com passos emparelhados,
celebram brindes de bons alvitres,
dividem o peso dos dias,
compartilham planos,
preparam juntos o alimento que comem
e, nas noites insones,
jogam o jogo dos olhos
postos nos olhos um do outro.
Somos os que, de tanto diminuir,
multiplicar e dividir,
escolhemos somar,
recompensados por nos ampliar.

Eliseo Martinez
19.04.2017
121.

Eu, Eles e os Outros


Com toda a semelhança
que nos aproxima ao longe,
tão distintos somos
ao pé uns dos outros.
Uns fazem-se solos,
outros duos e outros, ainda,
transitam múltiplos.
O mal maior dos ímpares
é perceberem-se duplicados;
o dos pares, acordarem
ímpares acompanhados;
e o dos múltiplos,
não poder se dividirem
entre os tantos que neles vivem.
Os primeiros, temem o encontro;
os segundos, o desencontro;
os terceiros, talvez,
se depararem a sós consigo,
entre escombros.

Eliseo Martinez
19.04.2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

120.

Quase isso...


O mundo vem,
provoca a gente,
e provoca sempre
de um jeito diferente...
Que melhor remédio
para não morrer de tédio?
A cada mês, ensaiar
pedir a conta, e
saltar do andar térreo
do prédio?

Eliseo Martinez
03.04.2017