Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 19 de abril de 2017

123.

Pós - Niilista


Ao abandono de imagens que revoam entorno, sorteadas ao acaso entre tantas amontoadas no armário das memórias imaginadas, o sujeito, ali sentado, cogita no que vale a vida, esse estranho filamento enfiado de fragmentos que revolucionam no ar pesado.
Evento grávido de perdidos e achados, partidas e chegadas,
coalhado de beleza, tomado por metástases de melancolia e medo, sobre o fundo de mal-estar em que vivemos.
Quando tudo desacelera e as personas com que vai ao mundo,
desatam do rosto e caem por terra, ele dá de cara com a
própria face nua que já não contava como sua.
Até então, oculta no breu dos labirintos que se enraízam pela mente, à falta de alma que os inunde de luz inteiramente,
manifesta-se uma presença que o resume com solidez de essência.
A minúscula versão da singularidade primeira replica e desfaz as ilusões de um eu ateu divinizado, ao centro do universo postado, cheio de olhos gulosos arregalados, agora, reconfigurados a rastrear regiões do espaço interior, tão remotas quanto a estrela mais distante já vista por olho de bicho humano.
Sob as esferas que giram lá fora, alheio as sombras de credos a dentro e, acima de tudo, saciado das fomes, desassossegos e amores, nada mais define este homem que a espera indefinida que, em silêncio, o consome.
Posicionado ante si mesmo e mais nada, sem o quê o distraia da angústia do que o destino reserva à toda a gente, o tal homem continua a mover-se em pensamento.
Somos todos feitos de uns poucos grãos de tempo, mal ajuntados pelo insólito acaso de um momento.
Neste preciso instante, e em nenhum outro, ele admite para si o que já não pode omitir, "o que luta não compreende" e, abdicando de estar, se reclina nas redes da paz para ser, simplesmente, antes de apenas ausência.
É quando quase se deixa levar, escoado pelos poros dilatados do ar.
Na contramão, o instinto responde-lhe de imediato e fios de apego o fazem ficar.
A pulsão de existir nos prende a caminhos já percorridos, num apelo mais forte do que o imprevisto salto no limbo desconhecido.
Apesar do redondo do todo, uma vez acalentado no mais belo dos sonhos sonhado, só restam pedaços espalhados por todo lado.
Afeiçoado ao lugar, reorienta o curso e, ciente do custo a ser pago, resigna-se a girar parado.
O gozo do homem sentado no único banco da pequena estação é feito dos comboios de palavra que passam, fazendo das ideias que levam e trazem, passatempo, até que o seu passe, e ele com ele mesmo, bem ali, vendo...

Eliseo Martinez
18.04.2007

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