Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 26 de abril de 2017

126.

Eternos serão os retornos ?


Infelizmente não me foi dado crer em ser superior diferente daqueles das aventuras de Flash Gordon, saídos dos gibis empoeirados de um insano pai atormentado.
Tampouco, algum crédito dispenso a influência dos astros sobre a má sorte dos homens, desejosos que somos de forças mais nobres que nos supervisionem a vida pobre, os amores e a morte.
Nostradamus falava em fenômenos que se sucedem no tempo e no espaço, previsíveis sob a cuidadosa análise de traços geométricos riscados nos mapas. Outro sintoma da vontade crônica que todos temos de ocupar o trono abandonado pelos criadores em fuga ao se depararem com as criaturas.
Testemunhamos o cortejo das modas, como o popular biorritmo, dos idos 70; o engodo dos Ury Guellers, entortadores de colheres; gurus dos mais diferentes; cartomantes; videntes; emissários fantasmas de verdades inefáveis e o fim dos tempos à virada do milênio.
E, a pairar sobre tudo, a sombra das religiões, fortalecendo ancestrais fraquezas de indefesas multidões.
Muito do imaginário do desumano mundo humano é feito de crendices, superstições e mitos, numa miríade de apelos sobrenaturais, esperançosos de algum mísero alento a nossas existências banais.
No entanto, a todo o momento, deparamos com aleatórios eventos, que parecem girar no rastro da órbita traçada por algum misterioso compasso.
Coincidências que eriçam os sentidos, mexendo com a sensatez do mundo em que piso, e que tento interpretar com lentes lógicas, distantes das mais exóticas respostas.
Falo dos desconcertantes períodos que alternam o mal que nos rasga a carne e o bem que nos beija a face.
Falo de estreitas afinidades entre os que sonham os mesmos sonhos, pensam pensamentos que estão a ser pensados pelo outro.
Falo de ciclos que nos conduzem a lugares já vividos, sem que isso tenha sido, por nós, decidido.
Falo dos sentidos que nos recapitulam, trazendo à tona cores, cheiros, texturas, sons e sabores que a muito se foram.
Tendo a crer na poesia que canta o retorno de Ulisses aos braços de sua Penélope amada, superados os medonhos contratempos pela astúcia da razão do herói mítico, fundando a mais antiga versão do "eterno retorno", mais tarde considerado por Nietzsche e Proust, cada um na genialidade de seus sonhos.
A volta à Tristeza, bairro de minha infância, de onde guardo registros das primeiras alegrias de criança, é exemplo disso.
Como é, também, o retorno, desde o fundo dos antanhos, ao "Julinho", tão estruturante para este, então, jovem errante, onde hoje, fala de filosofia aos novos jovens, entre a angústia do que se tornou a Escola e o carinho com que a viu forjar sua história.
Outro, ainda, são pessoas que viveram meu passado para emergirem no presente, como que saídas do nada.
É como se a vida, de alguma forma modificada, se repetisse numa estranha órbita espiralada.
A busca de algum vínculo oculto entre tantos acasos sobreviveria alheia ao estreito círculo do credo raso?
O que parece certo é que, ao canto de sereia que nos acomoda às fantásticas cantilenas, poucos se sabe das respostas verdadeiras.
Las brujas, por supuesto, no las creo, más dicem que por ai, entre nossotros, alegremente passean...

Eliseo Martinez
26.04.2017

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