Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 28 de maio de 2017

135.

Madiba

Mais do que sobreviver, manter-se vivo e inteiro,
em tempos de homens partidos ao meio.
Assim, vestido em sua roupa de briga, de dentro da cela,
pôs-se à frente de uma geração em guerra,
saída do gueto de Soweto e das favelas.
Confinado ao cubículo pelo branco invasor,
forte foi o negro prisioneiro ao dominar sua dor.
A vontade de aço fez recuar um par de passos
o temor ancestral, que jamais deixará de espreitar nosso lado.
Com todo o mal, levantou-se como escol entre nós,
a apontar o caminho, junto aos que, privados da voz,
destinavam-se a ser moídos pelo moinho.
Ali, do coração indomável daquele único homem,
de corpo já frágil,
encarcerado e liberto por uma estranha coragem,
foi redimida parte da maldição que habita
o âmago da besta humana, que somos.
Com norte definido pelo espírito forte,
escudo forjado na grandeza da alma
e armado da lança da razão,
acabou por derrubar as muralhas da infame prisão.
A voz ecoada por todo o lado,
partiu do fundo da África e foi escutada
pelo resto do mundo.
Do universo tribal à aldeia global
entoou-se a lenda viva de um tal de Madiba,
tecelão de arcos-iris tecidos
na cor das terreiras de todas as tribos.

Eliseo Martinez
27.05.2017

sábado, 27 de maio de 2017

134.

Albas Árvores


Quando eu era pequeno, antes da ecologia ser hasteada em bandeira, confesso ter ensaiado o desmatamento global no quintal da casa da mãe
de minha mãe.
Empenhei-me em derrubar mamoneiro, goiabeira
e abacateiro, além do pé de pera. Que, por suculentas que eram as frutas, é agravante da pena.
É fato, aquelas velhas árvores já não tinham o viço que, por certo, haviam tido.
A extinção, não concedida, faria do espaço um campinho, perfeito para o jogo de bola e as brigas, depois da escola, entre irmãos e primos. Chutes, pontapés, empurrões e os risos.
A cada árvore derrubada, avançava o tal campo que imaginara.
Agradava-me a ideia de organizar o terreno, livra-lo dos obstáculos, restos do que já foram, ali, formas variadas de vida.
Hoje, ao ver o corpo estendido da mais nova filha da velha senhora do pátio, oco de alma, com um último sorriso congelado no rosto, pessoa a quem amava, lembrei das árvores que abati naquele quintal.
Talvez amemos menos, não sei. Sei apenas que não deve ser por amor que acabamos por quase querer ver fora do pátio as árvores que já não são frondosas, como se elas perturbassem os espaços, agora, já livres delas, mais organizados, mais desumanizados, de volta à ordem de nosso próprio cansaço.

Eliseo Martinez
26.05.2017 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

133.

O Sábio, a Borboleta e o Poeta


Perguntado sobre o que era um sábio,
o sábio respondeu que disso nada sabia.
Sabia, apenas, da extensão do que ignorava,
a crescer a cada dia.

Perguntada sobre como era voar,
a borboleta respondeu que não havia
tempo para nisto pensar.
Borboletas de asas leves
preferem o voo ao peso das razões,
que às manteriam presas ao chão,
privadas do gozo das sensações.

Perguntado o que faz de seus dias,
o poeta risca na suja areia
o contorno de uma rosada baleia.
O outro diz, já viu muitas?
Nenhuma, responde.
Isso é o que faço.
Coo coisas que se escondem
por atrás dos fatos e exponho,
às vezes, até com a cor
que nelas sonho.

Eliseo Martinez
22.05.2017

sábado, 20 de maio de 2017

132.

Oscar

Olhos gulosos denunciam
inquietos senhores,
que saem as ruas,
rastreiam interiores,
famintos de formas,
volumes, contornos.
Com sentidos despertos
seguem vãos de concreto,
relevos, corpos, objetos.
Recompensados na graça nua
da linha que declina e curva,
reverente a Oscar,
primeiro dentre os santos ateus,
que mais bem do que outros
a soube traçar,
na leveza do peso
com que a concebeu.

Eliseo Martinez
20.05.2017
131.



Toda a escassa pureza
há de ser protegida
nestes tempos que,
sob o simulacro da imagem,
ardem tempos selvagens.

Eliseo Martinez
20.05.2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

130.

Se


Fosse eu capaz de amar de novo,
seria a ti que amaria
pelo que me resta dos dias.
Tu dizes, prova! Sente o sabor.
E, eu, apenas sinto o gosto,
sem mais, da fruta na boca.
Tu chama a atenção para 
a vista encantadora dos quintais.
Me volto e só consigo enxergar
ruínas de casebres e roupas velhas
estendidas nos varais.
Tu fala, olha que lindo!
Eu olho e vejo galhos secos
retorcidos, espalhados pela orla.
Tu insiste, que lugar de sonhos!
E eu me deparo com umas poucas
gaivotas, num canto de praia
sem cuidado, em abandono.
Às vezes, teu jeito de falar,
tem a força de fazer, em mim,
tudo o mais parar.
Como que pela fresta
de uma porta entreaberta,
me vejo a observar a delicadeza
que persiste em ti,
alheia ao pouco que te foi permitido,
e acabo por apaziguar
os demônios que me acompanham.
A beleza que mora em teus olhos,
me faz ver, com tudo
que emprestei da vida,
quão funda se fez em mim
a trinca da ferida.
Se perguntassem
por quem meu coração bate,
diria que ele bate por ti,
meu amor,
se fosse possível amar de novo...

Eliseo Martinez
18.05.2017

quarta-feira, 10 de maio de 2017

129.

O Blefe Humano


Difícil é dar-se conta que a vida não passa de um tênue fio de tempo que escorre entre os estremos de um breve momento, presa a um grão abandonado à deriva no vácuo, sem limite que o defina, sem paradeiro fixo que o confirme.
Que sua natureza é feita de caos, despropósito e movimento, sem nada do que imaginou a mente delirante dos homens, quer na glória, quer no tormento, agigantando-nos a minúscula existência.
A soma de toda a tragédia humana não é outra senão sermos um entre tantos a povoar astros, destinados a desaparecer sem legado, sequer rastro. Quem sabe, ainda mais, já que nossos sonhos parecem ser sempre maiores do que pode o lugar que os acolhem.
A história, a nós tão cara, tingida com as cores todas do arco-íris, que vão da paixão à covardia, em seus diversos matizes, nada mais seria que um átimo perdido no tráfego silencioso do espaço, uma obsessão pelas causas, pelos fins e pelos meios de nossos desimportantes embaraços.
O que mais resta à liberdade - no caso de haver alguma - do que apropriar-se desta verdade e traçar a própria trilha, por mais que ela seja pequenina, com coragem suficiente para, a cada passo do caminho, ousar reinventar o raro fluxo da parcela que nos coube de existência, sabendo-se que o devir é nada, sequer miragem de uma esperançosa transcendência?
Ainda que a teimosia, tatuada nos genes da raça, seja a centelha que nos fez outro frente aos que pagaram caro por cruzar conosco;
Ainda que tenhamos inventado seres tão maiores que nós mesmos e tanto mal feito em nome deles;
Ainda que possamos abrir improváveis atalhos a golpes insanos de vontade, apesar de todo amor e horror de que somos capazes;
Ainda que sejamos loucos suficiente para cortar o fio já curto, por ódio, credo ou surto;
Ainda que algo cintile em nossa alma de fera frente ao belo e o rolar da lágrima sincera...
Se alguma inteligência, entre bocejos e o desprezo ao próprio tempo, estivesse a nos observar ao longe, testemunharia o que, de fato, fomos: o pequeno blefe humano.

Eliseo Martinez
10.05.2017

128.

Brasil


Os ossos de gelo
expostos da cordilheira
unem o hispânico continente,
que leva encravado ao peito
um coração que sangra diferente.

Eliseo Martinez
09.05.2017