155.
E o Real, o que é?
Tudo se resume no frágil lume de uma vela
oscilando ao ar da noite fria,
que vaza entre as frestas da janela.
Da tênue luz que emana do mais obscuro
dos seres à profunda escuridão
que ronda o mais puro dos corações,
que já pulsou em peito humano.
O que nos é difícil conceber,
deuses que nos tornamos,
em pleno exílio de egos
em caravana pelos desertos,
é que, ao fim, tudo se iguala,
e o que move a mente,
inquieta, que seja, ou silente,
não é mais que a ilusão,
de que é feita a alma de toda a gente.
O que é real é mais que a carne,
o pau ou o metal.
É outra coisa além do que a tribo toda
ouve, vê ou entoa,
reunida em torno do fogo,
à beira da lagoa.
São seus sonhos,
somados ao delírio que,
na solidão de cada um de seus entes,
furtivamente ecoa.
Eliseo Martinez
22.09.2017
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
domingo, 17 de setembro de 2017
154.
Grão dos Dias
Por uma única guia de vida,
se enfiam díspares grãos de dia.
Dias que se vive
e aqueles que sobrevivemos,
menos livres.
Prefiro os claros,
de um azul profundo,
que purificam mente e sentimentos.
Mas como relegar os nublados
e os cinzentos,
quando se mergulha para dentro?
Os que pertencem a nós mesmos
e, outros, em que alguém mais chega
e duplica a existência que temos.
Se uns são importantes,
pois neles, quem sabe, nos vemos,
os outros podem nos tornar relevantes
perante olhos estrangeiros,
a testemunhar que ainda estamos.
E, esse estar, desobrigado
de obeso contentamento,
já que cegos, não somos,
ao que se passa entorno.
Sendo este ou aquele,
o desafio é que o grão do dia
nos surpreenda inteiros
e, no descuido dos males,
assim sigamos mais fora
que dentro do carreiro,
nestes tempos que se fazem tão graves.
Eliseo Martinez
17.09.2017
Grão dos Dias
Por uma única guia de vida,
se enfiam díspares grãos de dia.
Dias que se vive
e aqueles que sobrevivemos,
menos livres.
Prefiro os claros,
de um azul profundo,
que purificam mente e sentimentos.
Mas como relegar os nublados
e os cinzentos,
quando se mergulha para dentro?
Os que pertencem a nós mesmos
e, outros, em que alguém mais chega
e duplica a existência que temos.
Se uns são importantes,
pois neles, quem sabe, nos vemos,
os outros podem nos tornar relevantes
perante olhos estrangeiros,
a testemunhar que ainda estamos.
E, esse estar, desobrigado
de obeso contentamento,
já que cegos, não somos,
ao que se passa entorno.
Sendo este ou aquele,
o desafio é que o grão do dia
nos surpreenda inteiros
e, no descuido dos males,
assim sigamos mais fora
que dentro do carreiro,
nestes tempos que se fazem tão graves.
Eliseo Martinez
17.09.2017
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
153.
Divino Toque
O que seria do que nos mata a fome
além de encher pratos de pastos sem sabores,
subtraído o que lhe dá gosto e aroma,
despertando gastronômicos ardores?
Depois de morta sede e gula,
o que se bebe ou come alimenta a alma,
mais do que ao estômago faz falta.
No reino dos prazeres, entende o súdito obediente,
que temperos dos mais variados têm lugar assegurado,
aguçando desejos frente ao posto sobre às mesas.
Muito do que nos levou ao mundo devemos a eles,
os condimentos, com toda a certeza.
Novos hábitos foram herdados de povos milenares,
quando europeus saíram-lhes à busca,
rumo às Índias, ainda hoje, misteriosas.
Se comparássemos os alimentos a uma morada,
partiríamos de uma casa feita de pedra,
do piso ao teto.
O que nutre, preparado ao descuido do afeto.
Mas, ao compormos o espaço, outra seria sua graça.
Sal, pimenta preta e alho-poró,
na casa, seriam as portas, as janelas e as cortinas sobre elas.
Manjericão, orégano e coentro,
os canos d'água, a luz dos cômodos e o banho quente.
Alecrim, cebolinha e cheiro verde,
as camas, as roupas nos armários e os quadros das paredes.
Erva doce, ervas finas, noz-moscada,
o ar e o aroma da tal casa,
já quase pronta para ser habitada.
Cebola, alho e pimenta vermelha,
a alma que faltava para lar, ser chamada.
À beira da lareira, estendidos sobre os tapetes,
dois corpos aquecidos,
cruzam taças de vinho tinto,
envelhecido nas mais finas especiarias,
completam o que, agora,
é mais que abrigo, é ninho.
Eliseo Martinez
08.09.2017
Divino Toque
O que seria do que nos mata a fome
além de encher pratos de pastos sem sabores,
subtraído o que lhe dá gosto e aroma,
despertando gastronômicos ardores?
Depois de morta sede e gula,
o que se bebe ou come alimenta a alma,
mais do que ao estômago faz falta.
No reino dos prazeres, entende o súdito obediente,
que temperos dos mais variados têm lugar assegurado,
aguçando desejos frente ao posto sobre às mesas.
Muito do que nos levou ao mundo devemos a eles,
os condimentos, com toda a certeza.
Novos hábitos foram herdados de povos milenares,
quando europeus saíram-lhes à busca,
rumo às Índias, ainda hoje, misteriosas.
Se comparássemos os alimentos a uma morada,
partiríamos de uma casa feita de pedra,
do piso ao teto.
O que nutre, preparado ao descuido do afeto.
Mas, ao compormos o espaço, outra seria sua graça.
Sal, pimenta preta e alho-poró,
na casa, seriam as portas, as janelas e as cortinas sobre elas.
Manjericão, orégano e coentro,
os canos d'água, a luz dos cômodos e o banho quente.
Alecrim, cebolinha e cheiro verde,
as camas, as roupas nos armários e os quadros das paredes.
Erva doce, ervas finas, noz-moscada,
o ar e o aroma da tal casa,
já quase pronta para ser habitada.
Cebola, alho e pimenta vermelha,
a alma que faltava para lar, ser chamada.
À beira da lareira, estendidos sobre os tapetes,
dois corpos aquecidos,
cruzam taças de vinho tinto,
envelhecido nas mais finas especiarias,
completam o que, agora,
é mais que abrigo, é ninho.
Eliseo Martinez
08.09.2017
domingo, 3 de setembro de 2017
152.
Com todas as mortes
que nos matam a cada dia,
desde as primeiras horas,
ao tirar a cabeça do travesseiro
até voltar a deita-la novamente,
à noite, sobre ele,
existe um mar de vida
que lambe e cicatriza
nossas feridas.
Vida bem mais que suficiente
para fazer valer à pena.
Ao que muito ajuda
reservar algum tempo
para pensar a morte,
entender que há termo,
fazendo-nos de fortes.
Até lá, tentar ser mais inteiros.
Ajudando a sorte
com a virtude que tivermos.
Se é que temos.
Eliseo Martinez
03.09.2017
Com todas as mortes
que nos matam a cada dia,
desde as primeiras horas,
ao tirar a cabeça do travesseiro
até voltar a deita-la novamente,
à noite, sobre ele,
existe um mar de vida
que lambe e cicatriza
nossas feridas.
Vida bem mais que suficiente
para fazer valer à pena.
Ao que muito ajuda
reservar algum tempo
para pensar a morte,
entender que há termo,
fazendo-nos de fortes.
Até lá, tentar ser mais inteiros.
Ajudando a sorte
com a virtude que tivermos.
Se é que temos.
Eliseo Martinez
03.09.2017
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