Divino Toque
O que seria do que nos mata a fome
além de encher pratos de pastos sem sabores,
subtraído o que lhe dá gosto e aroma,
despertando gastronômicos ardores?
Depois de morta sede e gula,
o que se bebe ou come alimenta a alma,
mais do que ao estômago faz falta.
No reino dos prazeres, entende o súdito obediente,
que temperos dos mais variados têm lugar assegurado,
aguçando desejos frente ao posto sobre às mesas.
Muito do que nos levou ao mundo devemos a eles,
os condimentos, com toda a certeza.
Novos hábitos foram herdados de povos milenares,
quando europeus saíram-lhes à busca,
rumo às Índias, ainda hoje, misteriosas.
Se comparássemos os alimentos a uma morada,
partiríamos de uma casa feita de pedra,
do piso ao teto.
O que nutre, preparado ao descuido do afeto.
Mas, ao compormos o espaço, outra seria sua graça.
Sal, pimenta preta e alho-poró,
na casa, seriam as portas, as janelas e as cortinas sobre elas.
Manjericão, orégano e coentro,
os canos d'água, a luz dos cômodos e o banho quente.
Alecrim, cebolinha e cheiro verde,
as camas, as roupas nos armários e os quadros das paredes.
Erva doce, ervas finas, noz-moscada,
o ar e o aroma da tal casa,
já quase pronta para ser habitada.
Cebola, alho e pimenta vermelha,
a alma que faltava para lar, ser chamada.
À beira da lareira, estendidos sobre os tapetes,
dois corpos aquecidos,
cruzam taças de vinho tinto,
envelhecido nas mais finas especiarias,
completam o que, agora,
é mais que abrigo, é ninho.
Eliseo Martinez
08.09.2017
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