Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
162.
As palavras não ditas
Ao contrário das parecenças, não era de muitas culpas
nem, tão pouco, de graves desavenças.
A bem da verdade,
pela oportuna distância mantida dos pares.
O que, de todo, não é antídoto infalível aos desafetos.
Ônus dos que insistem olhar com olhos próprios,
habituados ao que os dias têm de incertos.
Depara-se, na vida, com gente de todo o tipo,
farto sendo o cardápio de virtudes e vícios
dos que surgem pelo caminho, sem augúrios ou aviso.
No curso do percurso emergem inquietudes
ao pensar nos que, ao partirem,
deixaram-lhe no fio da existência
uns nós mal arrumados na consciência.
Àqueles a quem faltou dizer:
"apesar de tudo, grato pelo resto todo".
Por algum motivo, impedido de reconhecer,
via mutiladas certas causas
que fizeram dele, ele mesmo.
Sentia parte da raiz sendo-lhe arrancada,
deixando a copa, ao alto, ameaçada.
Tinha em mente os que, ao ensaiar despedidas,
pela soma dos anos, véus da mente ou enguiço do corpo,
estavam na fila, bem à frente,
prestes ao mergulho no escuro, sem retorno.
Sem, ao menos, um último cruzar de olhares,
que pudesse traduzir palavras difíceis de serem ditas.
E, mais adiante dos da frente, dois velhos quase parentes,
sem saber, prestes a desaparecer para sempre...
Eliseo Martinez
17.10.2017
161.
Da Natureza Humana
De todas as tolices já ditas
em defesa de uma suposta natureza humana,
pouco se mostrou convincente
àqueles que a pensam entre a gente.
Mas, nada é possível afirmar
do que seria a essência dos sapiens?
Confirmado a cada instante de sua existência,
o pensar e agir dos homens,
a um só tempo, é fruto e semente,
denunciando o contraditório neles,
da nascente a vertente.
Na busca incessante para superar o que,
desde sempre, veio inscrito em seus genes,
fez-se a história da raça, o cômico e o drama
das vidas todas que a tramam.
Condenados ao conflito, quer dentro,
quer no que vivem mundo afora,
muitas são as vontades que neles afloram.
Como locomotivas que rodam
os mesmos trilhos nos dois sentidos.
Nada mais sensato que refletir nas escolhas
a que cada homem se viu obrigado,
antes de, a brados de "J'accuse", o ter sentenciado.
Os caminhos por onde embretam, as lutas que lutam,
são frutos que colhem do mesmo
e, tão divergente, mundo, onde um é muitos.
Ante a aposta do vago plano civilizatório
à busca do convergente entre as gentes,
instalou-se o mal-estar difuso no âmago dos homens,
domesticados, obrigados a negar
que o mesmo objeto que lhes é posto à frente
é, para cada qual, diferente.
A verdade é mais que o incontestável dado.
É olhar dissidente.
É a representação do vivenciado,
num tempo e num espaço determinado.
Eliseo Martinez
12.10.2017
160.
Grão do Humano
Arde no coração dos homens
o germe de contradições insolúveis,
que os consomem.
Pobres dos que acham que viver é fácil.
Pelo intrínseco dos conflitos
que lhes brotam desde o início,
se movem os indivíduos,
à busca da paz banida
do mais fundo de seu íntimo.
A coexistência entre luz e trevas,
comédia e tragédia,
insaciáveis desejos e medo da perda,
foi o motor que nos conduziu
ao topo da cadeia,
alimentados de mitos e crenças,
sem resguardo de fronteiras.
Entre a promessa de vida
e o irredutível da morte,
negociamos ilusórios caminhos,
aplacando medos à busca de norte,
levados por miragens de felicidade
marcadas no mapa dos descaminhos.
A nostalgia, nos explica bem.
Esta saudade de algo impreciso,
nunca, até então, vivido,
que insiste em deixar na boca
o gosto do vinho não bebido.
Talvez nosso resumo mais conciso
não seja outro, senão o encontrado
no controverso grão do homem.
Talvez a isso se deva dar o nome
de natureza humana.
Eliseo Martinez
07.10.2017
159.
Pequena Dialética do Reconhecimento
Nestes tempos movediços, de câmbio dos paradigmas,
virtualiza-se o real e o cotidiano arranca os véus da dialética,
taciturna viúva que, de perto, tão clara e jovem se insinua.
Veja-se os sentimentos, no caso, o RECONHECIMENTO.
Sob auspícios da literatura e do cinema,
a arte faz-se sítio arqueológico, restaurando fósseis extintos,
que já foram caros, aos de baixo e aos de cima.
ao escavar tesouros de lealdade, apreço, honra e coragem.
Depois de agonizar no solo infértil dos desencontros,
eis que, justo o que restabelece o já conhecido, jaz morto.
Era o que, no passado, repunha, lado à lado,
paralelas que se perdiam por ai, dissociadas.
Mais abrangente que a pontual banalidade do mal,
é o mal da banalização geral,
útil em dias velozes ao abandono do que nos pesa nos ombros,
tido, na pressa, como sem valia ou murcho de lucro.
Típico sobrevivente contra à corrente,
o RECONHECIMENTO foi sentenciado à morte
pelo esquecimento e, talvez, por nossa falta de sorte.
Extinto do catálogo do sentir humano, por puro desuso,
retorna o fantasma de dentro dos livros, no plano das telas,
nas falas das trupes que se vão pelos palcos do mundo,
destinados, agora, a preencher a lacuna.
Restaurado pela arte - virtualizado, é verdade -, o que foi banido,
enternece corações sem aviso,
relembrados da perda, nas palavras e imagens
a denunciar sua ausência.
Sentir falta, é o que basta para que volte a pauta,
retornando, algum dia, ao real dos mortais
- não antes de virar cult, feeling intelectual -,
revivido por gente que se olha no rosto,
pega na mão, dá beijo na boca,
sentindo que tem de expressar o que sente,
com a esquecida gratidão reverente.
Completada a nova volta em espiral,
segue o dialético movimento,
sem solução final.
Eliseo Martinez
05.10.2017
158.
Tenda Brasil
De súbito, foi resgatado do lado de dentro,
metido, que estava, numa fenda do pensamento.
Entre os outros, já do lado de fora, a náusea!
Enfim, ao jogo, sempre se volta.
Os arautos, estes sócios que ajudam a tocar o negócio,
no pregão das velhas novas da última hora.
Ao picadeiro central, em habituais sobressaltos,
segue o espetáculo, que nunca para,
alheio ao silenciar dos aplausos.
Ilusionistas, trapezistas, contorcionistas, equilibristas...
Bichos e artistas de todo o tipo.
Piruetas, caretas e o terror oculto
no sorriso pintado no rosto de cada vulto.
Desafinam os músicos. Gritam os micos.
Sob a lona estendida, o respeitável público.
Caras aflitas, o mijo contido.
Pouco resta do que os chamou para a festa.
O mal-estar paira no ar viciado que resta.
Aos poucos, sem darem conta, a indiferença
abandona a seleta audiência.
Afiam-se vaias; os bravos, pelo chão,
pisoteados entre as pipocas e migalhas.
Como que suspensa num parênteses,
a maior parte da gente, ainda espera algo:
bufo ou trágico? Ninguém sabe.
Observam, entendendo pouco mais que nada
dos gestos, das marcas, das falas,
que flutuam, como tudo,
no mais obscuro absurdo.
Não há busca. Só o instinto pulsa.
No fogo, fervilham feijões na panela de pressão.
À distância segura,
o cenário todo é supervisionado
pelo supremo colegiado, os mais escolados
de toda a trupe de bufões paramentados.
Fora da cena, os donos da tenda
sonham ver o circo pegar fogo,
mas nada os fará pôr a perder a empresa,
que lhes estufa os bolsos e paga as despesas.
Vaca para ser ordenhada até a última gota
do leite que já esguicha adulterado.
Sentado ao lado, Nóis, o palhaço,
tem a boca e os olhos em visível descompasso.
Sem motivo sabido ou aviso emitido,
põe-se de pé, de chofre como um pontapé.
Um nariz vermelho é arremessado, primeiro.
E a multidão, sem muito pensar, altera o roteiro,
pondo ordem no pardieiro.
Eliseo Martinez
04.10.2017
157.
Minuto de Fama
Ia pelo canto da calçada.
E já ia atrasado.
Acho que pensava...
Quem era, mesmo, o cara
que lambia o prato?
Dizem que, pelas manhãs,
saudava todo o santo dia
com o rito bizarro de um sonoro flato.
Putz!!! Sem mais, sou enquadrado
nas lentes da Globo.
Logo na Rua da Praia,
no meio do povo.
Que tralha! Era o que faltava!
Querem que fale algo que valha
do tal vivente que,
por uma dessas coincidências,
estava a lembrar e do qual ainda
se encontra gente que comente.
Prova da falta de assunto
que toma conta deste cu de mundo!
- Realmente, "conheci" o fulano
(é claro, omito o detalhe,
já que quando se fala,
aspas não servem pra nada).
- O que tenho a dizer sobre ele?
Bom! Digo que foi um hedonista,
além de ateu e pseudo-anarquista,
um pai distante,
o pior dos funcionários
já pagos pelo erário.
Quer saber? Digo mais:
Um promíscuo ordinário.
Foi, sim senhor.
Anota, aí.
E, se não bastasse,
um irreverente!
- Corta! Corta! Já basta!
É suficiente.
- Em que horário vai passá?
É no telejornal que vai dá?
Eliseo Martinez
02.10.2017
156.
Prefiro as Somas
Dizer adeus é um aprendizado
que não me dou a aprender.
Sem que o saibam,
me fico pelas coisas, pessoas, lugares,
que passam sem passar.
Se há o que se escolha,
também há o que
se enrosca no que somos.
Até que as somos.
E, assim, nos vamos.
É como entendo que se deva ir.
Feito jubartes cruzando os mares,
se reconhecendo nas verrugas que trazem.
Eliseo Martinez
01.10.2017