Pequena Dialética do Reconhecimento
Nestes tempos movediços, de câmbio dos paradigmas,
virtualiza-se o real e o cotidiano arranca os véus da dialética,
taciturna viúva que, de perto, tão clara e jovem se insinua.
Veja-se os sentimentos, no caso, o RECONHECIMENTO.
Sob auspícios da literatura e do cinema,
a arte faz-se sítio arqueológico, restaurando fósseis extintos,
que já foram caros, aos de baixo e aos de cima.
ao escavar tesouros de lealdade, apreço, honra e coragem.
Depois de agonizar no solo infértil dos desencontros,
eis que, justo o que restabelece o já conhecido, jaz morto.
Era o que, no passado, repunha, lado à lado,
paralelas que se perdiam por ai, dissociadas.
Mais abrangente que a pontual banalidade do mal,
é o mal da banalização geral,
útil em dias velozes ao abandono do que nos pesa nos ombros,
tido, na pressa, como sem valia ou murcho de lucro.
Típico sobrevivente contra à corrente,
o RECONHECIMENTO foi sentenciado à morte
pelo esquecimento e, talvez, por nossa falta de sorte.
Extinto do catálogo do sentir humano, por puro desuso,
retorna o fantasma de dentro dos livros, no plano das telas,
nas falas das trupes que se vão pelos palcos do mundo,
destinados, agora, a preencher a lacuna.
Restaurado pela arte - virtualizado, é verdade -, o que foi banido,
enternece corações sem aviso,
relembrados da perda, nas palavras e imagens
a denunciar sua ausência.
Sentir falta, é o que basta para que volte a pauta,
retornando, algum dia, ao real dos mortais
- não antes de virar cult, feeling intelectual -,
revivido por gente que se olha no rosto,
pega na mão, dá beijo na boca,
sentindo que tem de expressar o que sente,
com a esquecida gratidão reverente.
Completada a nova volta em espiral,
segue o dialético movimento,
sem solução final.
Eliseo Martinez
05.10.2017
Nenhum comentário:
Postar um comentário