158.
Tenda Brasil
De súbito, foi resgatado do lado de dentro,
metido, que estava, numa fenda do pensamento.
Entre os outros, já do lado de fora, a náusea!
Enfim, ao jogo, sempre se volta.
Os arautos, estes sócios que ajudam a tocar o negócio,
no pregão das velhas novas da última hora.
Ao picadeiro central, em habituais sobressaltos,
segue o espetáculo, que nunca para,
alheio ao silenciar dos aplausos.
Ilusionistas, trapezistas, contorcionistas, equilibristas...
Bichos e artistas de todo o tipo.
Piruetas, caretas e o terror oculto
no sorriso pintado no rosto de cada vulto.
Desafinam os músicos. Gritam os micos.
Sob a lona estendida, o respeitável público.
Caras aflitas, o mijo contido.
Pouco resta do que os chamou para a festa.
O mal-estar paira no ar viciado que resta.
Aos poucos, sem darem conta, a indiferença
abandona a seleta audiência.
Afiam-se vaias; os bravos, pelo chão,
pisoteados entre as pipocas e migalhas.
Como que suspensa num parênteses,
a maior parte da gente, ainda espera algo:
bufo ou trágico? Ninguém sabe.
Observam, entendendo pouco mais que nada
dos gestos, das marcas, das falas,
que flutuam, como tudo,
no mais obscuro absurdo.
Não há busca. Só o instinto pulsa.
No fogo, fervilham feijões na panela de pressão.
À distância segura,
o cenário todo é supervisionado
pelo supremo colegiado, os mais escolados
de toda a trupe de bufões paramentados.
Fora da cena, os donos da tenda
sonham ver o circo pegar fogo,
mas nada os fará pôr a perder a empresa,
que lhes estufa os bolsos e paga as despesas.
Vaca para ser ordenhada até a última gota
do leite que já esguicha adulterado.
Sentado ao lado, Nóis, o palhaço,
tem a boca e os olhos em visível descompasso.
Sem motivo sabido ou aviso emitido,
põe-se de pé, de chofre como um pontapé.
Um nariz vermelho é arremessado, primeiro.
E a multidão, sem muito pensar, altera o roteiro,
pondo ordem no pardieiro.
Eliseo Martinez
04.10.2017
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