Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

166.



Com os paióis de insensatez abarrotados,
os silos de ódio e fúria transbordando,
eis que o mal todo foi aliviado
quando o amor, por descuido,
ou mal maior, foi inventado.

Eliseo Martinez
30.11.2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

165.


Ideias e pessoas


Novelo fiado da lã do carneiro dourado,
labirinto, rastro, Minotauro,
heróis, velas brancas, velas negras,
harpias, faunos, sereias...
Retrós de avós girando na máquina de costura,
costura sons no veludo da noite escura.
No pequeno cômodo, ao lado,
o sono nos puxando pras falésias do travesseiro.
Sob a luz fraca do candeeiro,
brotam trirremes, serpentes marinhas,
argonautas, hoplitas guerreiros...
Tão fácil amar ideias,
tão penoso amar pessoas!

Eliseo Martinez
23.11.2017

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

164.

O que nos leva pela mão


Na ponta mais aguda do presente,
o agora, sempre instável e reticente,
não parece que sejamos melhores
do que já fomos no longo rastro
dos tantos passos dados.
Criamos paraísos fictícios,
fortalezas de papelão, artifícios,
na inútil tentativa de dar norte,
vencido medo e má-sorte,
aos rumos da caminhada,
que dê felicidade aos homens
de justa vontade.
Que mais é o belo, a verdade,
a justiça, o amor, a liberdade...
senão mitos partilhados?
Pontos de uma frágil rede de significados?
Objetivos inventados, só existentes
na imaginação de toda a gente,
surgidos da estranha crença
no que jamais existiu na natureza.
Paliçada de nevoeiro que emerge
das densas névoas da alma humana,
a demarcar insólita fronteira
entre o caos e a certeza insana.
Há algo mais além da ilusão
que, desde o início, nos puxa pela mão?
Da fugacidade de um beijo, tantos desejos,
às vontades que desfraldam bandeiras,
com todo o sangue e ódio que vertem delas?
Quando o fulgor da visão cede ao opaco desencanto,
já não nos serve o ardor das miragens
que embalaram nossos cantos mais sagrados.
Antes dos invernos que hibernam corações,
resistindo ao torpor, apurando ouvidos,
pode-se escutar, ao longe, o mantra do tempo
trazido nas asas ligeiras do vento:
"tudo flui, tudo foi ..."

Eliseo Martinez
22.11.2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

163.

O Saber de Saber-se Menos


Orgulhosos, desvelamos realidades exteriores,
polimos elmos, escudos, foices.
Afiamos as longas adagas,
empunhamos lanças sob brados dos camaradas,
enquanto, sem dar-nos conta,
estendem-se véus sobre a pele das almas.
Céleres, desbravamos a natureza do mundo físico
e, passo a passo, sabemos menos de nós mesmos,
tateando pelo que nos vai no íntimo.
No início, com algum recompensado esforço,
deciframos os talos com os quais nos deparamos.
Sabemos das espessuras, dos cheiros, das texturas,
vendo-os ramificar, mais complexos se tornando.
Desconfiados das certezas que nos guiam,
seguimos um tanto confusos em rumo curvo
ao ver que se ramificam ainda, mais à frente.
E, assim, outras tantas, até que nos vemos
entre o emaranhado da floresta que nos cerca,
armados das poucas verdades que restam perto.
É neste preciso momento
que se inverte o curso da jornada
do imbecil ao entendimento.
É quando o Orgulho convoca o barman:
"Esta taça de cicuta vem ou não vem?"

Eliseo Martinez
20.11.2017