O que nos leva pela mão
Na ponta mais aguda do presente,
o agora, sempre instável e reticente,
não parece que sejamos melhores
do que já fomos no longo rastro
dos tantos passos dados.
Criamos paraísos fictícios,
fortalezas de papelão, artifícios,
na inútil tentativa de dar norte,
vencido medo e má-sorte,
aos rumos da caminhada,
que dê felicidade aos homens
de justa vontade.
Que mais é o belo, a verdade,
a justiça, o amor, a liberdade...
senão mitos partilhados?
Pontos de uma frágil rede de significados?
Objetivos inventados, só existentes
na imaginação de toda a gente,
surgidos da estranha crença
no que jamais existiu na natureza.
Paliçada de nevoeiro que emerge
das densas névoas da alma humana,
a demarcar insólita fronteira
entre o caos e a certeza insana.
Há algo mais além da ilusão
que, desde o início, nos puxa pela mão?
Da fugacidade de um beijo, tantos desejos,
às vontades que desfraldam bandeiras,
com todo o sangue e ódio que vertem delas?
Quando o fulgor da visão cede ao opaco desencanto,
já não nos serve o ardor das miragens
que embalaram nossos cantos mais sagrados.
Antes dos invernos que hibernam corações,
resistindo ao torpor, apurando ouvidos,
pode-se escutar, ao longe, o mantra do tempo
trazido nas asas ligeiras do vento:
"tudo flui, tudo foi ..."
Eliseo Martinez
22.11.2017
Nenhum comentário:
Postar um comentário