Reconhecimento II
Reconhecer não é mais que repor
o que estava fora de lugar,
por descuido ou desuso;
má-fé ou desafeto, que vem com a pressa.
É, antes, um movimento que corre dentro,
para só depois se fazer ao vento.
São os olhos úmidos ante as telas que nos tocam
ou efeito do inesperado gesto,
remexendo no que estava desalinhado e quieto.
Mas só quando nos permitimos lançar ao mundo
o que foi mexido em nosso íntimo, bem ao fundo,
unem-se pontas que pendiam soltas,
estabelecendo coerências e significados,
estendendo uma ponte entre nós
e o que, a custo, foi re-ligado.
Algo assim é experimentado na arte,
quando uma alquimia da mente
dá ordem à desordem que se sente.
Reconhecer, também, é um esforço
da moralidade a tecer totalidades.
Ato da razão que se curva à sensibilidade.
Em tempos fragmentados,
de velocidade desenfreada,
é o típico sentimento contra a corrente,
uma inconveniente delicadeza
às urgências do presente
que, no entanto, se ousado,
recompõe algo, antes destinado
a perder-se para sempre.
Eliseo Martinez
10.03.2018
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