Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 24 de junho de 2018

201.

O sorriso de Maria


Um olhar e João se enamorou de Maria.
Não se tratava de uma maria qualquer.
Sob pelo e pele de mulher,
era promessa certa de alegria.
Para João, Maria
logo passou a ser a que mais valia.
Ele, curado de tristezas, pouco ria. 
Não que houvesse algo que, sem ter, queria.
Era só o jeito com que se abrigou
para seguir com a vida que tinha.
O sorriso de Maria... nossa!
Era como um dia de sol que se abria,
enchendo de luz onde só sombra havia.
Algo, quase esquecido,
voltava a fazer sentido.
João guardou esse primeiro sentimento
na caixinha que trazia escondida no peito
e, contente, esqueceu dele lá dentro.
Este João! Não tem mesmo jeito!
O tempo foi passando e o tal João
seguia seduzido por tamanho encanto.
E, assim, se ia nessa relação simbiôntica,
aprendendo a gostar
até de comédia romântica.
Mas, depois de tanto gostar em vão
e um montão de nãos,
João foi aos poucos percebendo
que por trás do sorriso
lindo de Maria, pouco existia.
De fato, nada tinha de alegre,
mas triste ela era.
Pobre Maria! Sempre a falar de amor
e, dessas coisas, nada entendia.
Era só uma boca cheia de dentes
com um sorriso lindo e vazio,
como o fim de uma tarde fria.

Eliseo Martinez
24.06.2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

200.

Devir


Queiramos ou não,
por miseráveis que sejamos
ou anchos que estamos,
a consciência da própria morte,
que nos vem junto,
quem sabe por falta de sorte,
mensurando tudo,
de milímetro a segundo,
pôs o homem em peculiar posição
frente aos demais entes que compartilham
da improvável existência,
sem compreensão da exígua permanência.
A par disso, seres invisíveis
- micróbios patógenos e não divinos -,
mais transcendentes que nós próprios,
aguardam, sem ansiedade ou tédio,
o festim que não tarda,
enquanto ante pastam os corpos
que nos servem de suporte
na empreitada.

Eliseo Martinez
22.06.18


terça-feira, 12 de junho de 2018

199.

Feliz cumpleanõs


Para os há muito já não-meninos,
datas de aniversário são falsos ritos de passagem.
Nada dizem sobre o que deixamos para trás.

Não se demoram pelos jardins em que deitamos,
vales nevoentos que atravessamos,
paisagens que encheram olhos gratos.

Servem para lembrar o que não fizemos,
invocar paz e a necessária falta de pressa,
nos colocar à par do limbo que se estende à frente.

São como postes dispostos em linha reta,
que mal iluminam estradas a serem abertas
no mar sem gota d'água do deserto.

Y asi me gusta que sea.

Eliseo Martinez
13.06.2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

198.

Pausa para respirar


Mal não falta ao mundo
como atestam sábios,
néscios e moribundos.
Nunca se dirá o bastante sobre ele,
que se espalhou como que
por maléfico encanto.
É o mais democrático dos legados,
já que mal há de sobra para todos,
em todo o lado.
Reféns do medo,
relutantes em pensar por si mesmos,
atribuem-lhe a origem
à punição dos deuses
ou ao deleite dos demônios,
seus parentes.
Livre arbítrio!
Outros, coléricos, insistem.
Mas, tudo não é mais que lavra nossa,
parte da herança já exposta.
Hábil ferramenta para controlar
tolos cordeiros que, em lobos raivosos,
se tornam sem demasiados esforços.
Produzimos imensa gama de malesas
com maquinações de poder que dividiram
homens em classes, castas e estamentos,
o que não nos poupa sofrimentos
e, por estranho que pareça,
em nada incomoda piedosos devotos.
Maldades que afetam gente sem conta,
levadas a cabo pelos poderosos
mas, também, maldades capilares,
cobras criadas entre os miseráveis.
Que sentido faz afirmar
que os males são inerentes à raça,
naturalizados como sina
de uma possível desgraça nossa?
Sob as lentes do que tememos,
com todo o mal perpetrado pelo tempo,
testemunhado no espaço,
somos levados a esquecer flores outras
que não as flores da maldade.
E, do que esquecemos?
Esquecemos do gênio da humanidade.
Para além do que é imperfeito,
há também o imenso bem,
feito por este animal peculiar,
que somos nós, em nosso trôpego caminhar.
Nos mesmos campos que prolifera o inço,
frutificam pomares que saciam
a fome de milhares.
Se, muitas vezes, se colhe o menor,
o propósito, quase sempre foi maior.
Arte, ciência, filosofia, contos da carochinha...
Se para nada servir o lembrete,
que sirva como pausa,
para o que nos resta de criança possa respirar,
antes que o medo dirija os passos
que ainda temos para dar.

Eliseo Martinez
11.06.2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

197.

Um outro lugar

A liberdade, por vezes,
necessita emancipar-se
do sólido e áspero
chão da realidade.
Alçar voo para se derramar
pelas bordas do horizonte.
Um lugar só concebido por humanos,
para lá dos confins
onde o intangível se esconde,
visitado, entre outros,
pelos chamados insanos,
visionários e loucos.
Lugar em que não
se levantam cercas,
as dores se fazem amenas
até que desapareçam,
o NÃO é, a entrada, barrado
e o impossível passeia livre
no dorso de um unicórnio alado.
O lugar de que falo
não é menos necessário
do que o de onde
colhemos o grão do pão,
deitamos exaustos
ao final de um dia de trabalho,
desejamos em vão.
De lá é contrabandeado
o antídoto para o veneno dos dias,
a ficção.
Este lugar é conhecido
por imaginação.

Eliseo Martinez
08.06.2018

terça-feira, 5 de junho de 2018

196.

Cine Gioconda

Quando criança, ia nas matinés
do cinema Gioconda, na Tristeza.
De onde, apesar do nome,
lembro de aventuras que, ainda hoje,
povoam meu imaginário,
me vêm em sonhos.
Aventuras, essas, melhor entendido,
mais para Tom Sawyer do que
Harry Potter, é claro.
Dias mágicos, aqueles.
A imaginação tinha de fazer
seu trabalho diário, imaginar.
Que fique, ainda, mais claro.
Sala espaçosa, apinhada pela piazada.
Bastava o apagar das luzes
e as cadeiras eram arrastadas
mais para perto da tela,
no alvoroço da gurizada.
A balbúrdia instalada,
que atravessava o cinejornal,
ao início da fita, silenciava.
Mas não havia pés que deixassem
de fazer tremer as tábuas do assoalho
quando bandidos eram perseguidos
pelo mocinho montado a cavalo,
chapéu na cabeça, como que colado.
Sangue, não tinha.
Mas nunca mais vai se ver tanta bala
saindo de uma mesma arma.
Era quando o Gioconda vinha à baixo.
De lá para cá, muito mudou.
Quase tanto quanto podia se esperar.
Dava para olhar no rosto do bom,
ver a cara feia dos maus.
Um fazia o bem, os outros, mal.
Simples, assim.
Nem precisava desenhar.
Tudo fechava com uma coerência
que ia nascendo na cabeça
daqueles meninos e meninas,
tão cheios de vida.
Coisa de criança, naturalmente,
que se diga.
Sem saudosismo, mas a bem da verdade,
o tédio, raridade, ainda não fazia sucesso
entre aquela gente miúda, de tenra idade.
Mas, fico aqui matutando...
Algo parece ter sido roubado
das crianças de hoje.
Talvez a culpa seja da telinha menor,
onde se perdem mais sozinhas que nós,
guris das coerentes manhãs de sábado
do Cine Gioconda.
                                                         
Eliseo Martinez
05.06.2018

domingo, 3 de junho de 2018

195.

Me explico


Nem romântico, nem hedonista.
Do que, então, é feito
este querer que me fica?
Se tivesse eu de me explicar,
nesta réia que não para de passar,
começaria por dizer que quero
o abraço de muito braços
me acalentando no mais
amplo e branco dos espaços,
como se em um campo nevado,
nu eu me encontrasse,
onde a vista se perdesse em meio
a paz do frenesi de solidões
que, no vigor do afeto, se acompanham.
Já de nada vale sair à busca
de um único alguém que me aguarde,
pois essas extintas formas de amar
não fazem mais parte da paisagem.
Sinto-me recompensado
pelos muitos que me moveram
antes de se tornarem imprescindíveis
miragens do passado;
alimento para alma, do qual sou grato.
Meu destino, que se cumprirá ou não,
é o de me acueirar em aconchego,
entre coxas, peitos, beijos;
cabelos que se entrelaçam com meus pelos.
Quero sons que se harmonizem pelos ares
e o tilintar de cálices,
palavras que já foram escritas
e outras, que ainda serão bem vindas
ao encontrarem suas linhas.
Quero falas, risos, cúmplices olhares,
que nos aquecem ao se cruzarem
no frio que toma conta dos lugares.
Nem sempre deste querer
se fizeram meus desejos,
mas é do que, hoje, são feitos,
nesta estância que, quem sabe,
se rebulice ainda mais tarde,
antes do aceno aos que ficam
neste único sítio da viagem.

Eliseo Martinez
03.06.2018