Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 5 de junho de 2018

196.

Cine Gioconda

Quando criança, ia nas matinés
do cinema Gioconda, na Tristeza.
De onde, apesar do nome,
lembro de aventuras que, ainda hoje,
povoam meu imaginário,
me vêm em sonhos.
Aventuras, essas, melhor entendido,
mais para Tom Sawyer do que
Harry Potter, é claro.
Dias mágicos, aqueles.
A imaginação tinha de fazer
seu trabalho diário, imaginar.
Que fique, ainda, mais claro.
Sala espaçosa, apinhada pela piazada.
Bastava o apagar das luzes
e as cadeiras eram arrastadas
mais para perto da tela,
no alvoroço da gurizada.
A balbúrdia instalada,
que atravessava o cinejornal,
ao início da fita, silenciava.
Mas não havia pés que deixassem
de fazer tremer as tábuas do assoalho
quando bandidos eram perseguidos
pelo mocinho montado a cavalo,
chapéu na cabeça, como que colado.
Sangue, não tinha.
Mas nunca mais vai se ver tanta bala
saindo de uma mesma arma.
Era quando o Gioconda vinha à baixo.
De lá para cá, muito mudou.
Quase tanto quanto podia se esperar.
Dava para olhar no rosto do bom,
ver a cara feia dos maus.
Um fazia o bem, os outros, mal.
Simples, assim.
Nem precisava desenhar.
Tudo fechava com uma coerência
que ia nascendo na cabeça
daqueles meninos e meninas,
tão cheios de vida.
Coisa de criança, naturalmente,
que se diga.
Sem saudosismo, mas a bem da verdade,
o tédio, raridade, ainda não fazia sucesso
entre aquela gente miúda, de tenra idade.
Mas, fico aqui matutando...
Algo parece ter sido roubado
das crianças de hoje.
Talvez a culpa seja da telinha menor,
onde se perdem mais sozinhas que nós,
guris das coerentes manhãs de sábado
do Cine Gioconda.
                                                         
Eliseo Martinez
05.06.2018

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