229.
Tectônicas forças
Toda a paz
de que os pares são capazes
pode nascer do ato primeiro,
recém consumado,
de corpos que, agora,
se abandonam exaustos.
E o caos do mundo todo
entra em modo de espera
por coágulos de segundos,
medidos em tempo outro
que não o dos relógios de pulso.
Sem pressa.
Rochas e mares da terra,
grávidos de lavas, enxofre e ferro,
para eles, e só para eles,
gentilmente congelam.
Eliseo Martinez
26.03.2019
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
terça-feira, 26 de março de 2019
quarta-feira, 6 de março de 2019
228.
As viagens
Viagem, uma só palavra para dizer
de tantos que são os jeitos de nos irmos
de um ponto ao outro do espaço,
no tempo próprio dos nossos passos.
O certo é que o que parece o mesmo,
se apresenta diverso ao ser visto mais de perto.
O turista ensaia o gosto
do que não falta ao experiente viajante,
se esbaldando no antepasto
sem provar do melhor servido à janta.
O primeiro leva a mala cheia
no prazo pouco em que vai a sítios outros;
ao segundo, mais vale o suficiente
levado à trouxa, na precisão de pés ágeis
e o que lhe poupe forças.
Há viagens em que se vai só, ávido de aventuras
ou em fuga do que nos faz doer a vida dura;
noutras, o olhar que pousa sobre coisas,
pessoas e lugares multiplicam as mesmas
coisas, pessoas e lugares
nos olhos do companheiro de viagem.
Viagens mexem com quem somos,
provando que o jeito certo de ver o mundo
não é um, mas muitos.
Com elas, esvazia-se a bacia
do imoral, do feio ou do ilícito
para tornar mais cheias as tinas
do amoral, do belo ou do possível.
É através dos lugares distantes,
que testemunham o lento passar
de nossos corpos,
que a vivência da diferença
desfaz crostas de preconceitos,
movendo nossas velhas crenças.
É entre as partidas e chegadas
que ampliamos os contornos
do que chamamos identidade
e incorporamos cheiros, cores e sabores.
Mas, também, nos dão a chance
de sentir saudades
do nosso próprio cotidiano.
Eliseo Martinez
22.02.2019
As viagens
Viagem, uma só palavra para dizer
de tantos que são os jeitos de nos irmos
de um ponto ao outro do espaço,
no tempo próprio dos nossos passos.
O certo é que o que parece o mesmo,
se apresenta diverso ao ser visto mais de perto.
O turista ensaia o gosto
do que não falta ao experiente viajante,
se esbaldando no antepasto
sem provar do melhor servido à janta.
O primeiro leva a mala cheia
no prazo pouco em que vai a sítios outros;
ao segundo, mais vale o suficiente
levado à trouxa, na precisão de pés ágeis
e o que lhe poupe forças.
Há viagens em que se vai só, ávido de aventuras
ou em fuga do que nos faz doer a vida dura;
noutras, o olhar que pousa sobre coisas,
pessoas e lugares multiplicam as mesmas
coisas, pessoas e lugares
nos olhos do companheiro de viagem.
Viagens mexem com quem somos,
provando que o jeito certo de ver o mundo
não é um, mas muitos.
Com elas, esvazia-se a bacia
do imoral, do feio ou do ilícito
para tornar mais cheias as tinas
do amoral, do belo ou do possível.
que testemunham o lento passar
de nossos corpos,
que a vivência da diferença
desfaz crostas de preconceitos,
movendo nossas velhas crenças.
É entre as partidas e chegadas
que ampliamos os contornos
do que chamamos identidade
e incorporamos cheiros, cores e sabores.
Mas, também, nos dão a chance
de sentir saudades
do nosso próprio cotidiano.
Eliseo Martinez
22.02.2019
sexta-feira, 1 de março de 2019
227.
Lisboa das muitas falas
Lisboa é dessas cidades que envelhecem
como envelhecem as meninas brejeiras.
É o que sinto quando ouço
o alegre burburinho das ruas,
ladeadas pelo velho casario,
o rastro de aço dos elétricos que passam,
o anoitecer animado no pequeno cais,
à beira do grande rio.
Depois que o sol se põe por trás da ponte,
despertam o Chiado,
Madragoa, Alfama e o Bairro Alto,
enchendo de vida as vielas tortas de cima.
Perdi a conta das vezes que me vi
a andar por esta cidade que, desde o início,
me foi fácil amar.
Me agrada o jeito de toda a gente,
o que põem nos copos, servem nos pratos,
o cantarolar que vaza
pelo entreaberto das portas;
recantos que se descobrem
por onde quer que se ande,
lugares revisitados, que me são familiares.
O sobe e desce das ladeiras,
havendo pernas para os degraus
que levam aos terraços,
o elogio das águas a correr
nos parques, passeios e praças,
a mística de cada bairro,
a milenar história da raça.
Apesar das simpatias,
ainda não estou a torcer pelo Sporting,
sequer pelo Benfica, o que é bem provável
que ainda faça algum dia.
Mas ando, mesmo, é a torcer pelo povo
que aprendeu a fazer as cordas de pedra
que ornam seus castelos;
sobreviveu mesclando-se a romanos,
visigodos e mouros, assim como
pela força da espada, fé e bravatas,
colhendo delas louros fartos;
que, à frente da potência marítima lusitana,
decaída, a integrou ao velho mundo,
sem terem o que lhe diga.
Como viver Lisboa sem ir aos fados,
provar da ginjinha e da alheira
e não topar com os pedintes nas calçadas?
Que Lisboa sobreviva aos dia que correm,
sob a silenciosa invasão das novas hordas
de asiáticos e brasileiros,
somados a miríade de estrangeiros,
numa rica mistura de culturas,
mas - óh, pá! -, que saiba manter a sua.
Eliseo Martinez
15.02.2019
Lisboa das muitas falas
Lisboa é dessas cidades que envelhecem
como envelhecem as meninas brejeiras.
É o que sinto quando ouço
o alegre burburinho das ruas,
ladeadas pelo velho casario,
o rastro de aço dos elétricos que passam,
o anoitecer animado no pequeno cais,
à beira do grande rio.
Depois que o sol se põe por trás da ponte,
despertam o Chiado,
Madragoa, Alfama e o Bairro Alto,
enchendo de vida as vielas tortas de cima.
Perdi a conta das vezes que me vi
a andar por esta cidade que, desde o início,
me foi fácil amar.
Me agrada o jeito de toda a gente,
o que põem nos copos, servem nos pratos,
o cantarolar que vaza
pelo entreaberto das portas;
recantos que se descobrem
por onde quer que se ande,
lugares revisitados, que me são familiares.
O sobe e desce das ladeiras,
que levam aos terraços,
o elogio das águas a correr
nos parques, passeios e praças,
a mística de cada bairro,
a milenar história da raça.
Apesar das simpatias,
ainda não estou a torcer pelo Sporting,
sequer pelo Benfica, o que é bem provável
que ainda faça algum dia.
Mas ando, mesmo, é a torcer pelo povo
que aprendeu a fazer as cordas de pedra
que ornam seus castelos;
sobreviveu mesclando-se a romanos,
visigodos e mouros, assim como
pela força da espada, fé e bravatas,
colhendo delas louros fartos;
que, à frente da potência marítima lusitana,
decaída, a integrou ao velho mundo,
sem terem o que lhe diga.
Como viver Lisboa sem ir aos fados,
provar da ginjinha e da alheira
e não topar com os pedintes nas calçadas?
Que Lisboa sobreviva aos dia que correm,
sob a silenciosa invasão das novas hordas
de asiáticos e brasileiros,
somados a miríade de estrangeiros,
numa rica mistura de culturas,
mas - óh, pá! -, que saiba manter a sua.
Eliseo Martinez
15.02.2019
226.
A Casa da Severa
No breve pulso de um segundo,
todo o vasto mundo
coube em um único verso
já cantado pela velha Severa,
agora, saído da boca de outra
a passar-se por ela.
Tu, como se ali estivesse,
entre os arcos da cave,
retornada do passado,
saída de uma porta mal fechada.
Na voz vigorosa da outra,
o canto do fado lembrou
teus olhos postos nos meus
e os meus nos teus...
Eliseo Martinez
14.02.2019
A Casa da Severa
No breve pulso de um segundo,
todo o vasto mundo
coube em um único verso
já cantado pela velha Severa,
agora, saído da boca de outra
Tu, como se ali estivesse,
entre os arcos da cave,
retornada do passado,
saída de uma porta mal fechada.
Na voz vigorosa da outra,
o canto do fado lembrou
teus olhos postos nos meus
e os meus nos teus...
14.02.2019
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