Lisboa das muitas falas
Lisboa é dessas cidades que envelhecem
como envelhecem as meninas brejeiras.
É o que sinto quando ouço
o alegre burburinho das ruas,
ladeadas pelo velho casario,
o rastro de aço dos elétricos que passam,
o anoitecer animado no pequeno cais,
à beira do grande rio.
Depois que o sol se põe por trás da ponte,
despertam o Chiado,
Madragoa, Alfama e o Bairro Alto,
enchendo de vida as vielas tortas de cima.
Perdi a conta das vezes que me vi
a andar por esta cidade que, desde o início,
me foi fácil amar.
Me agrada o jeito de toda a gente,
o que põem nos copos, servem nos pratos,
o cantarolar que vaza
pelo entreaberto das portas;
recantos que se descobrem
por onde quer que se ande,
lugares revisitados, que me são familiares.
O sobe e desce das ladeiras,
que levam aos terraços,
o elogio das águas a correr
nos parques, passeios e praças,
a mística de cada bairro,
a milenar história da raça.
Apesar das simpatias,
ainda não estou a torcer pelo Sporting,
sequer pelo Benfica, o que é bem provável
que ainda faça algum dia.
Mas ando, mesmo, é a torcer pelo povo
que aprendeu a fazer as cordas de pedra
que ornam seus castelos;
sobreviveu mesclando-se a romanos,
visigodos e mouros, assim como
pela força da espada, fé e bravatas,
colhendo delas louros fartos;
que, à frente da potência marítima lusitana,
decaída, a integrou ao velho mundo,
sem terem o que lhe diga.
Como viver Lisboa sem ir aos fados,
provar da ginjinha e da alheira
e não topar com os pedintes nas calçadas?
Que Lisboa sobreviva aos dia que correm,
sob a silenciosa invasão das novas hordas
de asiáticos e brasileiros,
somados a miríade de estrangeiros,
numa rica mistura de culturas,
mas - óh, pá! -, que saiba manter a sua.
Eliseo Martinez
15.02.2019
Nenhum comentário:
Postar um comentário