Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 29 de junho de 2019

251.

Vida breve


Dizer que o tempo de uma vida não é muito,
é dizer coisa alguma.
Mas que diabos!
Ao passarmos ante o espelho,
a dissimulada insiste em parecer sem termo.
É possível pensar o fim sem que isso
nos convide a um mórbido exercício?
Rompido o medo e o dilema vindo com ele,
pensar a finitude de nós mesmos
pode ser o que nos falte para decidir
o que fazer do tempo que resta.
Movidos pelas velas enfunadas da razão,
quem sabe, até, desembrulhar o pacote todo
recebido já na infância, junto com o nome?
Quem sou eu e onde me situo
ante todos os outros que me julgam?
Tribalizados, entre tantos,
haverá algo mais sensato que desvendar
as forças invisíveis que determinam
cada dia de nossas vidas,
quando a maioria de nós mal suspeita
que elas existam?
O que, desde sempre, nos embarca no comboio,
quando, por vezes, nos convém
manter distância dos trilhos e, assim,
mais livres, mais juntos de nós mesmos,
a viver de um outro jeito
daqueles que nos rodeiam.
Quem disse nos cair melhor os uniformes,
dançarmos ao som do mesmo pagode,
adorarmos os mesmos deuses
ou mesmo acreditar que eles existam,
prestar obediência aos de sempre,
fazer-se a cada dia equilibrista?
Pensar além da tribo é sempre um risco,
um trabalho que decidimos dar a mente
mas, também, o que nos torna diferente,
no intento de rasgar o pano de fundo
do mal estar que paira sobre o mundo,
dando algum conteúdo que redefina
o que seja liberdade e felicidade,
esvaziadas de sentido.
E, deste modo, nos colocar à distância
de perspectiva da própria vida
conhecendo um pouco mais de nós mesmos,
sem medo do que nela vemos.

Eliseo Martinez
28.06.2019

segunda-feira, 24 de junho de 2019

250.

Hoje, firmei papéis que me farão
mais dono de mim mesmo
e, assim, apropriar-me de lotes inteiros
de meu próprio desejo,
deixando para trás os dias fatiados
pelas jornadas de trabalho,
as frustrações, os planos de aula,
e o fuxico juvenil da sala
de heroicos ultrajados professores
e o pouco oferecido àqueles que todos dizem
ser o futuro do Brasil, pátria enganada!
Pobres jovens!
Nestes tempos assassinos,
poucas verdades carregam
tanta mentira consigo.
Contudo, muitas são as razões
que justificam as lides de um mestre escola,
o que explica o nostálgico viés desta hora.
Contradições que vêm juntas
com o ofício de um docente
parecem inchar de repente,
ao não mais compartilhar meus dias
com centenas de adolescentes
como que abandonados por suas famílias
e pelo Estado, corrompido do crânio oco
ao último esfíncter de seu intestino grosso.
No caleidoscópio dos paradoxos
do que insiste ser chamado Educação,
na "pátria amada", sobressai a ausência
da sempre nova lógica do velho Aristóteles,
fiel à crença de emancipar homens
pelas conquistas da mente.
E, nossos jovens, destinados
ao trabalho braçal e barato,
a saciar mesquinhos apetites do mercado.
Ricos em rebeldias, medos e esperanças,
esses rapazes e meninas, no limiar de suas vidas,
irritantes, por vezes, que se diga,
admiráveis ante tantos obstáculos,
pentelhos malcriados, instigantes, comoventes...
oscilando entre o raio de luz da curiosidade,
o poço nevoento do tédio, a sedução da purpurina,
a alegria inocente que não mais terei pela frente.
De todas as partidas, é nesta que deixo parte de mim
em tantos e parte deles todos levo comigo.
Que o presságio das bruxas, pítias,
hierofantes, magos, pajés, sibilas,
reunidos num mesmo time, a conspirar destinos,
não se concretizem e as próprias moiras se rendam,
uma única vez que seja, à musa da poesia,
poupando do impiedoso massacre
esses desventurados meninos e meninas
que somaram sentidos as nossas vidas.

Eliseo Martinez
24.06.2019

segunda-feira, 17 de junho de 2019

249.

A ida aos desertos

À falta de credo que sustente
as narrativas do amor,
seja lá o que isso for,
valendo-me da falta das irínias,
tão nossas conhecidas,
decidi pela partida.
Sem culpa ou culpados,
já se vai tarde o tempo
do mais ou menos.
Que sejamos dois ou três,
mas que sejamos inteiros.
Necessário se faz entender
o que, de fato, não temos.
Por método e não por mágoas,
que, é certo, inexistem,
não me procure,
tampouco me encontre
e, se possível, me evite.
Dinamitei ponte a ponte,
fechei cada atalho,
cada caminho.
Não poupei sequer túneis
cavados sob os montes,
nem paradeiro confiei aos vizinhos.
Me fui aos desertos
e foi preciso que fosse sozinho.
Sobrevivendo a mim mesmo,
algum dia te ligo e, quem sabe,
ainda nos vemos,
entre um ou dois copos de vinho,
pesando ganhos e perdas
que, no entanto, não foram maiores
que os medos que temos.

Eliseo Martinez
17.06.2019

quinta-feira, 13 de junho de 2019

248.

Dia de aniversário


Neste dia, já exaltei mulheres,
no calor de sua companhia;
lembrei de um outro que também nascia
e que em sua errância me serviu de guia;
fiz planos que não segui,
mesmo que fosse o que mais valia;
me vi em lugares que jamais iria
sem o pretexto de celebrar tal dia.
Das versões de minha infância,
as que mais me vêm à mente
vêm com torta de pêssego e nata
sobre à mesa, servida à toda gente.
Costumávamos festejar a data
com as crianças do bairro,
parentes e amigos da escola;
mais tarde, com cúmplices da hora.
Hoje, não é estranho
passarmos com nós mesmos,
lembrados no calor frio
das mensagens do WhatsApp.
Dentre os ritos inventados,
sei lá por que cargas d'água,
este é o que mais nos marca.
Para não nos dissolver, de vez,
no meio de todos os demais, talvez.
Ou, apenas, para sinalizar o tempo
de ser o grão,
antes de amassada a massa
que vai dar no pão.

Eliseo Martinez
13.06.2019

segunda-feira, 10 de junho de 2019

247.


Hoje, acordei com as ideias reviradas.
Como, em sonho,
vi revirarem coisas minhas,
valendo-se de minha ausência,
plenos dos direitos formais de parentesco.
Justo quem virou-me as costas,
sequer telefona ou gasta à toa
um Feliz Aniversário,
Bom Natal ou Próspero Ano.
E, eu, negado do mais tenro fruto
da ancestral árvore que nos deu o nome
- que só os tolos se acham donos -, olhando,
não sei bem se do alto ou de baixo,
desistindo de querer entender
a mesquinhez de tais atos.

Eliseo Martinez
10.06.2019

sábado, 8 de junho de 2019

246.

Sábado


Pé no chão, asseio; café com leite,
pão com mel, mamão, devaneio.
Um cortejo de pensamentos transita
comigo pelos cômodos desertos do ônfalo,
enquanto me ocupo das rotinas miúdas
que fazem dos espaços, moradas.
Prego, martelo, um Quixote a mais
na parede branca da sala;
papéis amassados, descartados, saco plástico;
grosa, goiva, estilete e formão, talho na talha,
fio escarlate na palma da mão, "ai!!!";
mertiolate, esparadrapo, algodão.
Casa que sara, lembra o bordão.
A chuva caída na véspera
dispensou-me dos cuidados
com as plantas que verdejam o terraço.
O chiado do velho toca-discos
dá, ao fim de semana, um ar animado.
E, assim, se vai parte do sábado.
Mais tarde, palavras que alimentam
fomes do peito, são postas de lado,
alinhadas nas folhas do livro fechado.
Uma lerdeza envolve os limites do sofá
que me aconchega nestes dias nublados.
Maneia a cabeça, maneia de novo
e, sem que me dê conta, tooommba...
zzzzz...
A existência toda desacelera
e entra em breve modo de espera.
Com olhos pesados, levanto e ando,
feito um Lázaro ensonado.
Há que se viver este hoje
antes que vá parar no cesto dos ontem.
Junto grãos de pimenta preta, gim,
anis e água tônica aos limões frescos,
recém colhidos na arca de gelo.
Retorno aos domínios do sofá,
onde sou como que amigo do rei.
Matizes de um horizonte cinzento
invadem a sala pelas telas das janelas,
expondo a melancólica beleza.
Penso no tempo e o tempo,
que não pensa, leva meus pensamentos.
Olhos postos no teto chumbo do mundo,
decido misturar-me ao rés do chão
que lhe serve de fundo.
Calço botas, visto casaco,
desço das quatro alturas e,
sob frio e fina garoa, cruzo ruas.
Sou batedor sem retaguarda
em imaginária jornada pela cidade vazia,
livre da ética, da política, da economia,
sempre atendo a vaga-lumes de poesia.
Na praça, à frente do educandário,
perfilam bancos molhados.
Escolho o mais seco deles e sento.
Sou neandertal com a cara enterrada
num cachorro do Rosário.
À volta, as pombas ciscam migalhas
e do manto denso das nuvens
surge o olho do sol que me espia,
antes que a noite caia e feche, de vez, o dia.
Se calhar, de passagem pela Cidade Baixa,
ainda pego o Elton John,
que está levando no Guion.
Entre tanto político sacana,
nenhum jamais pensou
que é pouco sábado pra tanta semana.

Eliseo Martinez
08.06.2019

segunda-feira, 3 de junho de 2019

245.


Não faltando alimento ao corpo
e força vital a algo chamado alma,
que nada mais é do que o conjunto
amplo das subjetividades
de um ente humano,
o que vale, ao fim e ao cabo,
é a paz alcançada,
pouco importando
se ante os que contam
ou na solidão,
em meio aos outros tantos.

Eliseo Martinez
03.06.2019