Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 8 de junho de 2019

246.

Sábado


Pé no chão, asseio; café com leite,
pão com mel, mamão, devaneio.
Um cortejo de pensamentos transita
comigo pelos cômodos desertos do ônfalo,
enquanto me ocupo das rotinas miúdas
que fazem dos espaços, moradas.
Prego, martelo, um Quixote a mais
na parede branca da sala;
papéis amassados, descartados, saco plástico;
grosa, goiva, estilete e formão, talho na talha,
fio escarlate na palma da mão, "ai!!!";
mertiolate, esparadrapo, algodão.
Casa que sara, lembra o bordão.
A chuva caída na véspera
dispensou-me dos cuidados
com as plantas que verdejam o terraço.
O chiado do velho toca-discos
dá, ao fim de semana, um ar animado.
E, assim, se vai parte do sábado.
Mais tarde, palavras que alimentam
fomes do peito, são postas de lado,
alinhadas nas folhas do livro fechado.
Uma lerdeza envolve os limites do sofá
que me aconchega nestes dias nublados.
Maneia a cabeça, maneia de novo
e, sem que me dê conta, tooommba...
zzzzz...
A existência toda desacelera
e entra em breve modo de espera.
Com olhos pesados, levanto e ando,
feito um Lázaro ensonado.
Há que se viver este hoje
antes que vá parar no cesto dos ontem.
Junto grãos de pimenta preta, gim,
anis e água tônica aos limões frescos,
recém colhidos na arca de gelo.
Retorno aos domínios do sofá,
onde sou como que amigo do rei.
Matizes de um horizonte cinzento
invadem a sala pelas telas das janelas,
expondo a melancólica beleza.
Penso no tempo e o tempo,
que não pensa, leva meus pensamentos.
Olhos postos no teto chumbo do mundo,
decido misturar-me ao rés do chão
que lhe serve de fundo.
Calço botas, visto casaco,
desço das quatro alturas e,
sob frio e fina garoa, cruzo ruas.
Sou batedor sem retaguarda
em imaginária jornada pela cidade vazia,
livre da ética, da política, da economia,
sempre atendo a vaga-lumes de poesia.
Na praça, à frente do educandário,
perfilam bancos molhados.
Escolho o mais seco deles e sento.
Sou neandertal com a cara enterrada
num cachorro do Rosário.
À volta, as pombas ciscam migalhas
e do manto denso das nuvens
surge o olho do sol que me espia,
antes que a noite caia e feche, de vez, o dia.
Se calhar, de passagem pela Cidade Baixa,
ainda pego o Elton John,
que está levando no Guion.
Entre tanto político sacana,
nenhum jamais pensou
que é pouco sábado pra tanta semana.

Eliseo Martinez
08.06.2019

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