251.
Vida breve
Dizer que o tempo de uma vida não é muito,
é dizer coisa alguma.
Mas que diabos!
Ao passarmos ante o espelho,
a dissimulada insiste em parecer sem termo.
É possível pensar o fim sem que isso
nos convide a um mórbido exercício?
Rompido o medo e o dilema vindo com ele,
pensar a finitude de nós mesmos
pode ser o que nos falte para decidir
o que fazer do tempo que resta.
Movidos pelas velas enfunadas da razão,
quem sabe, até, desembrulhar o pacote todo
recebido já na infância, junto com o nome?
Quem sou eu e onde me situo
ante todos os outros que me julgam?
Tribalizados, entre tantos,
haverá algo mais sensato que desvendar
as forças invisíveis que determinam
cada dia de nossas vidas,
quando a maioria de nós mal suspeita
que elas existam?
O que, desde sempre, nos embarca no comboio,
quando, por vezes, nos convém
manter distância dos trilhos e, assim,
mais livres, mais juntos de nós mesmos,
a viver de um outro jeito
daqueles que nos rodeiam.
Quem disse nos cair melhor os uniformes,
dançarmos ao som do mesmo pagode,
adorarmos os mesmos deuses
ou mesmo acreditar que eles existam,
prestar obediência aos de sempre,
fazer-se a cada dia equilibrista?
Pensar além da tribo é sempre um risco,
um trabalho que decidimos dar a mente
mas, também, o que nos torna diferente,
no intento de rasgar o pano de fundo
do mal estar que paira sobre o mundo,
dando algum conteúdo que redefina
o que seja liberdade e felicidade,
esvaziadas de sentido.
E, deste modo, nos colocar à distância
de perspectiva da própria vida
conhecendo um pouco mais de nós mesmos,
sem medo do que nela vemos.
Eliseo Martinez
28.06.2019
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