256.
O fator humano
Nem mesmo tribalizados se encontravam.
Não passavam de grãos de solidão amontoados,
todos juntos e cada um pro seu lado.
O que os olhos bovinos miravam
escorria pelas mentes embotadas.
Imersos em meio espesso e licoroso,
não partilhavam mais que a rasa conveniência
dos pequenos consensos mutilados
a dar conta de suas existências diárias.
Nada mais que isso os ligava.
E sem que se saiba por onde ou como,
o inesperado se deu feito trinca no ovo.
Talvez, fruto do acaso,
talvez, pelo transbordo do vaso,
talvez pelo cansaço de testemunharem calados
o massacre dos inocentes e a farra dos culpados.
Seja lá como for, o que se deu, deu-se
por causa ignorada e improvável resposta.
Uns cá, outros lá, tantos outros de lugares
que mal se sabia da existência,
fazendo-se ao mundo no oportuno da hora,
saídos de si mesmos, e não vindos de fora,
circulando afetos presos, indo à forra.
Negado o fundo contaminado
de mal-estar e desesperançado,
nasceu uma aceitação diferente,
só conhecida dos que passam a rir juntos,
depois de marejar os olhos ante olhos outros.
Com gestos que dizem mais que palavras,
tomaram entre as mãos seus destinos,
trançados como cestos de vime,
de fios tecidos num mesmo sentido.
Do gigantesco vórtice daí surgido,
entre mil utopias e vagas de apocalipses
travaram, por fim, o esperado combate
do amor e da esperança
contra o medo, o ódio e a intolerância,
numa trama de redes de sentidos coletivos,
dando uma nova ordem
à desordem da barbárie,
que há muito os têm ofendido.
Eliseo Martinez
30.07.2019
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
terça-feira, 30 de julho de 2019
terça-feira, 23 de julho de 2019
255.
Travessias
Transitar pelas comportas
que redefinem o fluxo de uma vida,
ainda que tudo mude e,
de um outro modo, tudo fique,
pode ser como a leitura de um livro
pelo qual nos afeiçoamos
e passamos a engendrar desculpas
para não chegar ao pé da última página,
sabendo que aquelas palavras,
por outros, ali deitadas,
nos fizeram menos sós, compondo
junto a outras tantas imagens,
no percurso todo, despertadas,
a casa mais íntima que habitamos,
a morada que abriga nossa identidade,
que continuará a ser edificada
até que já não mais façamos
parte da paisagem.
Eliseo Martinez
23.07.2019
Travessias
Transitar pelas comportas
que redefinem o fluxo de uma vida,
ainda que tudo mude e,
de um outro modo, tudo fique,
pode ser como a leitura de um livro
pelo qual nos afeiçoamos
e passamos a engendrar desculpas
para não chegar ao pé da última página,
sabendo que aquelas palavras,
por outros, ali deitadas,
nos fizeram menos sós, compondo
junto a outras tantas imagens,
no percurso todo, despertadas,
a casa mais íntima que habitamos,
a morada que abriga nossa identidade,
que continuará a ser edificada
até que já não mais façamos
parte da paisagem.
Eliseo Martinez
23.07.2019
quarta-feira, 17 de julho de 2019
254.
As ovas do mal
Nós mesmos,
homens e mulheres,
famintos ou saciados,
miseráveis ou abastados,
inteiros ou rachados,
valendo-nos da inteligência e vontade
com que nos presenteou o acaso,
em engenho dos mais notáveis,
criamos seres que tudo podem,
postos pela imaginação
acima de seus próprios inventores.
Erguidos os véus de mistérios
entre nós e o mundo,
as imaginárias criaturas,
alimentadas pela ignorância,
o medo e a loucura,
libertaram-se dos criadores
passando a mediar o certo e o errado,
o bem e o mal, o profano e o sagrado
do que é apenas humano,
com toda a astúcia e a torpeza
dos que souberam se valer da trapaça,
ousando mais que os iguais em engano.
Para manter a farsa
daqueles a quem tantos
estendem os braços
em busca de ajuda,
ao invés de irem à luta,
bastou solapar os nexos da raça,
tornando todos mais fracos,
restando aos sem isto ou sem aquilo
fazerem andar o negócio,
entre súplicas comovidas
e seus hinos religiosos.
Eliseo Martinez
17.07.2019
As ovas do mal
Nós mesmos,
homens e mulheres,
famintos ou saciados,
miseráveis ou abastados,
inteiros ou rachados,
valendo-nos da inteligência e vontade
com que nos presenteou o acaso,
em engenho dos mais notáveis,
criamos seres que tudo podem,
postos pela imaginação
acima de seus próprios inventores.
Erguidos os véus de mistérios
entre nós e o mundo,
as imaginárias criaturas,
alimentadas pela ignorância,
o medo e a loucura,
libertaram-se dos criadores
passando a mediar o certo e o errado,
o bem e o mal, o profano e o sagrado
do que é apenas humano,
com toda a astúcia e a torpeza
dos que souberam se valer da trapaça,
ousando mais que os iguais em engano.
Para manter a farsa
daqueles a quem tantos
estendem os braços
em busca de ajuda,
ao invés de irem à luta,
bastou solapar os nexos da raça,
tornando todos mais fracos,
restando aos sem isto ou sem aquilo
fazerem andar o negócio,
entre súplicas comovidas
e seus hinos religiosos.
Eliseo Martinez
17.07.2019
quinta-feira, 4 de julho de 2019
253.
Bilhete de viagem
Justo neste dia em que, anos atrás,
tu deu de cara com a vida,
me vejo aqui, pensando...
Não espere que vá te felicitar
pelo WhatsApp!
Um pouco menos prático,
faço isso de outro jeito,
aqui mesmo, neste espaço.
Acho que nem falei
do quão bom foi te ter ao lado,
revendo lugares que me são caros
e outros tantos conhecidos juntos
em nossa ida por um velho mundo.
Em todas as razões que me ocorrem,
foste tu a escolha acertada
para comigo por o pé na estrada.
Agora, que não mais nos vemos,
nestes tempos insanos
que não nos dão sossego,
quero dizer que gostei demais
de te ver contente a cada novo lugar,
coisa ou gente com sotaque diferente
que encontramos pela frente.
Que sentido melhor que esse
para se sair por ai,
a um passo de ser livre,
com pouca bagagem
e fome de muita vida?
Nesses dias todos, e foram tantos,
não te vi banalizar o que fosse
e, quando o cansaço, alguma vez,
se fez presente, - olha só! -
foste tu quem estendeu a mão
e me puxou para frente.
Por isso, também, te sou grato,
adorável companheira de viagem.
Que a distância não seja motivo
de deixar de te desejar
Feliz Aniversário!
Eliseo Martinez
04.07.2019
Bilhete de viagem
Justo neste dia em que, anos atrás,
tu deu de cara com a vida,
me vejo aqui, pensando...
Não espere que vá te felicitar
pelo WhatsApp!
Um pouco menos prático,
faço isso de outro jeito,
aqui mesmo, neste espaço.
Acho que nem falei
do quão bom foi te ter ao lado,
revendo lugares que me são caros
e outros tantos conhecidos juntos
em nossa ida por um velho mundo.
Em todas as razões que me ocorrem,
foste tu a escolha acertada
para comigo por o pé na estrada.
Agora, que não mais nos vemos,
nestes tempos insanos
que não nos dão sossego,
quero dizer que gostei demais
de te ver contente a cada novo lugar,
coisa ou gente com sotaque diferente
que encontramos pela frente.
Que sentido melhor que esse
para se sair por ai,
a um passo de ser livre,
com pouca bagagem
e fome de muita vida?
Nesses dias todos, e foram tantos,
não te vi banalizar o que fosse
e, quando o cansaço, alguma vez,
se fez presente, - olha só! -
foste tu quem estendeu a mão
e me puxou para frente.
Por isso, também, te sou grato,
adorável companheira de viagem.
Que a distância não seja motivo
de deixar de te desejar
Feliz Aniversário!
Eliseo Martinez
04.07.2019
segunda-feira, 1 de julho de 2019
252.
Agora percebo!
À cada pedra do caminho,
forças incompreensíveis conspiraram
para que eu me encontrasse aqui,
neste exato momento, distante,
ainda, do ponto de chegada,
mas num porto de acolhida
em uma curva da estrada,
onde posso banhar meu corpo
nas águas frescas da fonte,
provar do néctar e da ambrosia
servidos à mesa, faça dia ou noite,
reclinado na rede de uma paz bem-vinda,
emanada dos poros do que há entorno.
Entre as mãos, o vigor de páginas
que me fazem viajar mil viagens,
a música suave compondo o fundo,
e a chuva a inundar o chão do mundo.
Na moldura da janela, raio, trovão
e relâmpago, os velhos ciclopes helenos,
completam o conjunto em que me vejo.
Em um canto desta tela,
eu a sorrir comigo mesmo,
já, sem que me pesem armas
- foice, estilingue ou espada -,
imerso na mais completa harmonia.
A inquietude, alimento de uma vida vivida,
se deixando apaziguar, dissolvida,
ou, quem sabe, seduzida
por uma alma tranquila.
Eliseo Martinez
01.07.2019
Agora percebo!
À cada pedra do caminho,
forças incompreensíveis conspiraram
para que eu me encontrasse aqui,
neste exato momento, distante,
ainda, do ponto de chegada,
mas num porto de acolhida
em uma curva da estrada,
onde posso banhar meu corpo
nas águas frescas da fonte,
provar do néctar e da ambrosia
servidos à mesa, faça dia ou noite,
reclinado na rede de uma paz bem-vinda,
emanada dos poros do que há entorno.
Entre as mãos, o vigor de páginas
que me fazem viajar mil viagens,
a música suave compondo o fundo,
e a chuva a inundar o chão do mundo.
Na moldura da janela, raio, trovão
e relâmpago, os velhos ciclopes helenos,
completam o conjunto em que me vejo.
Em um canto desta tela,
eu a sorrir comigo mesmo,
já, sem que me pesem armas
- foice, estilingue ou espada -,
imerso na mais completa harmonia.
A inquietude, alimento de uma vida vivida,
se deixando apaziguar, dissolvida,
ou, quem sabe, seduzida
por uma alma tranquila.
Eliseo Martinez
01.07.2019
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