Heróis
Abrindo o mais vasto dos espaços
à imaginação dos mortais,
o imortal Flash Gordon tornou-se
herói da infância de meu pai,
que já aos quatro anos ouvia
relatos embasbacados da passagem
de uma gigantesca nave
pelos céus da cidade
(1934), o Graf Zeppelin.
Servir à Força Aérea, provavelmente,
foi a decorrência desse chamado
da nova fronteira aberta aos ares
na mente dos jovens de sua geração.
Anos depois, já adulto, seu ídolo era outro,
saído não mais das páginas dos gibis,
mas da imagem projetada na tela
dos cinemas de Porto Alegre:
Steve McQuinn que, dentre tantas façanhas,
consta ter tentado escapar dos infernos,
onde era prisioneiro, por sobre a cerca
de arame farpado montado numa Harley.
As aventuras vividas nas sagas dos heróis,
por fim, encontram sua desventura
entre as dobras do tempo que os corrói.
E não apenas eles ficaram confinados
no passado.
O próprio conceito que os fez ganhar vida
na fantasia dos que a tinham pela frente
parece que foi esvaziado de sentido.
O vento das realidades em movimento
acabou por soprar sobre terra e mares
de um mundo desencantado,
apressado para chegar ao lugar nenhum
em que nos movemos parados.
Que paladino sobreviveria, hoje em dia,
aos extensos desertos pontilhados
pelos circunscritos oásis da
imaginação instrumental?
Como o ídolo do passado
resistiria ao mercado volátil
dos valores negociáveis?
Com que pés se sustentaria o destemido
no piso movediço da pós-verdade,
onde o certo e o errado
se envolveram num escandaloso caso,
vistos a passear de braços dados
por todo o lado?
Hoje, talvez, o que mais se aproxime
da figura improvável do herói
possa ser compartilhado por três
personagens de osso e carne
que ousaram bem mais do que os demais,
dispostos a tudo perder
em nome de um ideal.
Homens que desafiaram o desmesurado
poder do inimigo comum que,
das sombras, controla o comum dos homens.
Julian Assange, do Wiki Leaks;
Edward Snowden, ex-agente da CIA e do NSA
e Glenn Greenwald, do Intercept Brasil
bem que poderiam ser esse Ulísses atualizado
em um mundo virtualizado,
operando midiáticos arsenais
no combate às novas-velhas castas,
que fizeram de sua versão o único relato válido.
Cada um deles, semideuses pagãos,
fez tremer a mão de ferro dos de cima,
useira em se abater sobre
os mantidos crédulos de baixo.
Não foram outros senão eles
a fazer recuar dois passos
os sempre dispostos a impedir
que o remédio da verdade seja aplicado
e o esclarecimento mude o resultado.
O que mais pode frente ao mal do que a verdade?
E o que mais é ocultado do que ela?
Eliseo Martinez
16.10.2019
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