Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

270.

Orgia

No início há de vicejar
latências de vontade,
como só das nuvens turbulentas
vingam chuvas, tempestades.
O mistério vem nas brumas,
turvando os ares da alcova nua
em torno da cuna crua.
Prepara-se a alquimia
com raros elementos proibidos
à beira da forja aquecida
na oficina dos sentidos.
Primeiro, é no olho que o grão
do desejo é produzido,
trazendo à luz a preciosa
flor carmim a ser colhida.
Da natureza das entranhas do planeta,
corpos despertam desassossegos,
pulsam corações selvagens
onde quer que haja vida e ela aconteça.
O breve instante se debruça
sobre as bordas lisas do infinito,
seduzido pelo abismo
como lhe pertencesse esse insólito destino.
Aromas de incenso adensam
a atmosfera esfumada,
amantes se entreolham, transfigurados.
Desatinados, celebram querubins,
demônios, sátiros, serafins
no sabat que tem início
sem acordo para o fim,
e só por inesperado compromisso
o próprio Dionísio
não comparece ao orgiástico festim.
Rios de fogo circundam a santidade
da terreira da maldita tribo,
onde se entoam órficos hinos,
repicam sinos entre gemidos
e crucifixos invertidos
benzem torrentes de fluídos.
O ciclo inteiro de um céu estrelado
gira sobre as cabeças
desses filhos do pecado.
Até que, extenuados,
desabam os convocados
no chão de panos amarfalhados.
Aos poucos, dissipam-se as miragens
do transe conjurado.
Olhares crispados se desfazem,
nervos e músculos desentesam.
É nesta hora que ateus da aldeia toda
sinceramente rezam.
A mente se faz plana, vazia
como que varrida por ventos
tépidos do deserto
e, recompensada, faz-se leve.
A paz chega ao pequeno quarto
em alvas ondas aveludadas,
sob uma luz baça, perolada.
E no nó desatado dos abraços,
nada mais importa ao homem
e a mulher, ali, deitados.
Tudo cabe no agridoce cansaço
dos corpos que, ora, jazem
e no traço riscado de seus lábios.
Nada além do hiato de tempo
num vácuo do espaço.
Lá fora, a cidade acorda
e ensaia a odiosa fanfarra
com suas máquinas de lata,
e as imagens tomam rumo,
envenenadas da realidade
de outros braços...

Eliseo Martinez
20.11.2019 

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

269.

In memoriam do nós


Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.

Eliseo Martinez
13.11.2019

sábado, 9 de novembro de 2019

268.

A miragem das chegadas


Abandonado o estado
de mancebo desembestado,
se viu no mundo com cega fé de ateu,
que desconheciam ser dotado,
esse desgarrado filho seu,
sempre atento a seta do sentido
disparada pelo incontrolável arco do acaso.
Por sete flechas foi varado
antes de fazer-se hábil em ler sinais,
distinguir nuances entre hordas de iguais.
À força dos próprios braços
e calos de abraços
conduziu a vela do destino,
mesmo que feita em trapos.
Singrou rumos pelo emaranhado
das trilhas do absurdo
num mar encapelado de vontades,
eros, tânatos e vaidades.
E foi-se a busca de coisa alguma
ao descobrir que o nada
é o que nos aguarda nas chegadas.
Sem jamais duvidar
do ouro da jornada.

Eliseo Martinez
09.11.2019

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

267.

Mandato


Depois de cabalar voto
entre inocentes úteis das cidades,
toda a sorte de esquecidos
por deuses e autoridades,
a ralé dos mal formados
e a elite dos safados,
instalou-se no assento infame dos eleitos,
voraz pelo naco de poder abocanhado,
cercado de sicários mancomunados
às expensas do mandato.
Inocentemente acanalhado a cada ato,
dissimulado como o criminoso oculto
ao mudar o curso do pequeno olho d'água
sem sujar as mãos na gleba do vizinho,
deixando nela o leito seco do riozinho
e no solo antes fértil,
sua obra de ervas daninhas.

Eliseo Martinez
08.11.2019