270.
Orgia
No início há de vicejar
latências de vontade,
como só das nuvens turbulentas
vingam chuvas, tempestades.
O mistério vem nas brumas,
turvando os ares da alcova nua
em torno da cuna crua.
Prepara-se a alquimia
com raros elementos proibidos
à beira da forja aquecida
na oficina dos sentidos.
Primeiro, é no olho que o grão
do desejo é produzido,
trazendo à luz a preciosa
flor carmim a ser colhida.
Da natureza das entranhas do planeta,
corpos despertam desassossegos,
pulsam corações selvagens
onde quer que haja vida e ela aconteça.
O breve instante se debruça
sobre as bordas lisas do infinito,
seduzido pelo abismo
como lhe pertencesse esse insólito destino.
Aromas de incenso adensam
a atmosfera esfumada,
amantes se entreolham, transfigurados.
Desatinados, celebram querubins,
demônios, sátiros, serafins
no sabat que tem início
sem acordo para o fim,
e só por inesperado compromisso
o próprio Dionísio
não comparece ao orgiástico festim.
Rios de fogo circundam a santidade
da terreira da maldita tribo,
onde se entoam órficos hinos,
repicam sinos entre gemidos
e crucifixos invertidos
benzem torrentes de fluídos.
O ciclo inteiro de um céu estrelado
gira sobre as cabeças
desses filhos do pecado.
Até que, extenuados,
desabam os convocados
no chão de panos amarfalhados.
Aos poucos, dissipam-se as miragens
do transe conjurado.
Olhares crispados se desfazem,
nervos e músculos desentesam.
É nesta hora que ateus da aldeia toda
sinceramente rezam.
A mente se faz plana, vazia
como que varrida por ventos
tépidos do deserto
e, recompensada, faz-se leve.
A paz chega ao pequeno quarto
em alvas ondas aveludadas,
sob uma luz baça, perolada.
E no nó desatado dos abraços,
nada mais importa ao homem
e a mulher, ali, deitados.
Tudo cabe no agridoce cansaço
dos corpos que, ora, jazem
e no traço riscado de seus lábios.
Nada além do hiato de tempo
num vácuo do espaço.
Lá fora, a cidade acorda
e ensaia a odiosa fanfarra
com suas máquinas de lata,
e as imagens tomam rumo,
envenenadas da realidade
de outros braços...
Eliseo Martinez
20.11.2019
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
269.
In memoriam do nós
Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.
Eliseo Martinez
13.11.2019
In memoriam do nós
Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.
Eliseo Martinez
13.11.2019
sábado, 9 de novembro de 2019
268.
A miragem das chegadas
Abandonado o estado
de mancebo desembestado,
se viu no mundo com cega fé de ateu,
que desconheciam ser dotado,
esse desgarrado filho seu,
sempre atento a seta do sentido
disparada pelo incontrolável arco do acaso.
Por sete flechas foi varado
antes de fazer-se hábil em ler sinais,
distinguir nuances entre hordas de iguais.
À força dos próprios braços
e calos de abraços
conduziu a vela do destino,
mesmo que feita em trapos.
Singrou rumos pelo emaranhado
das trilhas do absurdo
num mar encapelado de vontades,
eros, tânatos e vaidades.
E foi-se a busca de coisa alguma
ao descobrir que o nada
é o que nos aguarda nas chegadas.
Sem jamais duvidar
do ouro da jornada.
Eliseo Martinez
09.11.2019
A miragem das chegadas
Abandonado o estado
de mancebo desembestado,
se viu no mundo com cega fé de ateu,
que desconheciam ser dotado,
esse desgarrado filho seu,
sempre atento a seta do sentido
disparada pelo incontrolável arco do acaso.
Por sete flechas foi varado
antes de fazer-se hábil em ler sinais,
distinguir nuances entre hordas de iguais.
À força dos próprios braços
e calos de abraços
conduziu a vela do destino,
mesmo que feita em trapos.
Singrou rumos pelo emaranhado
das trilhas do absurdo
num mar encapelado de vontades,
eros, tânatos e vaidades.
E foi-se a busca de coisa alguma
ao descobrir que o nada
é o que nos aguarda nas chegadas.
Sem jamais duvidar
do ouro da jornada.
Eliseo Martinez
09.11.2019
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
267.
Mandato
Depois de cabalar voto
entre inocentes úteis das cidades,
toda a sorte de esquecidos
por deuses e autoridades,
a ralé dos mal formados
e a elite dos safados,
instalou-se no assento infame dos eleitos,
voraz pelo naco de poder abocanhado,
cercado de sicários mancomunados
às expensas do mandato.
Inocentemente acanalhado a cada ato,
dissimulado como o criminoso oculto
ao mudar o curso do pequeno olho d'água
sem sujar as mãos na gleba do vizinho,
deixando nela o leito seco do riozinho
e no solo antes fértil,
sua obra de ervas daninhas.
Eliseo Martinez
08.11.2019
Mandato
Depois de cabalar voto
entre inocentes úteis das cidades,
toda a sorte de esquecidos
por deuses e autoridades,
a ralé dos mal formados
e a elite dos safados,
instalou-se no assento infame dos eleitos,
voraz pelo naco de poder abocanhado,
cercado de sicários mancomunados
às expensas do mandato.
Inocentemente acanalhado a cada ato,
dissimulado como o criminoso oculto
ao mudar o curso do pequeno olho d'água
sem sujar as mãos na gleba do vizinho,
deixando nela o leito seco do riozinho
e no solo antes fértil,
sua obra de ervas daninhas.
Eliseo Martinez
08.11.2019
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