269.
In memoriam do nós
Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.
Eliseo Martinez
13.11.2019
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