Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 28 de julho de 2020

301.

Se não foi, poderia ter sido...

Antigos tratados de alquimia
guardam segredos da fórmula
de um raro vinho,
gravada com mágicas cifras
em folhas de pergaminho.
Arcanos proibidos
ao vulgar dos humanos,
operavam miragens proféticas
no exíguo rol de exegetas.
A mística ciência, armada
de mandinga e metafísica,
avançava no que, algum dia,
seria chamado química,
experienciando velhas crenças
sob lume de óleo e velas
na úmida penumbra
de porões sem janelas,
a misturar heréticos elementos
no calor de enegrecidos
caldeirões fumacentos.
Água de fontes sulfurosas,
musgos macerados,
colhidos em fendas rochosas,
peçonha de víbora anelada,
gomos das vinhas
que vingaram sob a geada,
lágrima de besta brava,
ferrão da cauda de lagarto alado,
bulbo de magnólias negras,
pata de percevejo,
cálcio extraído de esqueletos...
Sabia-se da essência
do próprio mistério
encerrada no interior da matéria.
Do fogo ou da terra,
da água ou do ar,
se punham a procurar
para, cedo ou tarde,
com sorte, método e arte,
a obstinada empiria
revelar ânima e potência
da substância, ali, escondida.
A poção fermentava
por sete dias e sete noites
no breu de fossa cavada
e decantava sob a lua cheia
em ânforas cozidas em viva lava,
para, a seguir, ser inoculada
no ventre de seres da mata
e deixada mofar
no interior de minas de sal,
níquel e, ao fim, de prata.
O sumo que dai resultava,
animava afluxos do sentimento
e brumas do pensamento,
aquecidos no cadinho dos crânios
inebriados dos iniciados,
transmutado no etéreo
quinto elemento,
a destilar coragem
para o que havia a ser feito,
dissolvendo sólidos medos,
sempre presentes,
abrindo mundos aos olhos da mente.
Se não foi bem assim,
assim poderia ter sido,
sob o iniciático labor dos sábios magos,
injustamente esquecidos
de seu precioso legado.

Eliseo Martinez
28.07.2020

quarta-feira, 15 de julho de 2020

300.

Delicadeza


Eu, aqui, pensando...
este contexto de tantas perdas
e escassos ganhos,
memórias póstumas,
esquecimentos precoces...
o vírus a abreviar vidas
por toda parte,
cumulando de cadáveres
obscenas covas rasas
também nestas paragens,
onde já não se passa
de mão em mão as cuias de mate...
Sem mais, toc, toc, toc!
(batidas à porta)
Neste início de tarde, gelado,
enquanto casas são invadidas pelo Lago,
fazendo dos necessitados, desabrigados;
a peste arregimenta desempregados
sob o giro furioso dos tornados
que varrem a esfera azulada
no exato ponto onde me encontro,
redescobrindo Machado,
no sofá frente à janela, acueirado.
Levanto-me a contragosto
e atendo ao inesperado chamado...
... para ser alvejado pelo gesto gentil,
na contramão deste tempo hostil.
Não há animal ferido
ou casco de fera brava,
nem mesmo ex-funcionário
que não necessite de pausa
para refletir sobre o inusitado caso,
com a devida escusa a Cubas,
em que pese o desdém declarado
do mais loquaz dos finados.
E eu, em retiro, a testemunhar
o insubordinado ato,
ante temores e egoísmos,
que nos têm fundido
a cara à máscara
pelos meses que se arrastam.
Faz pesar a crosta dura da couraça
e, por que não?,
melhor dosar o antídoto da desdita graça.
Quanto ao fato desmesurado,
acima mal relatado,
é coisa que fica melhor guardada
entre as memórias privadas
a serem bem lembradas,
no entanto, carece ser registrada.

Eliseo Martinez
15.07.2020

segunda-feira, 13 de julho de 2020

299.


Fui cobrado por meu amor.
Amor que teria, quem sabe,
se soubesse o que seja
essa vontade quimérica
de fazer do caroço uma cereja.
Se me faltou intensidade aos laços?
Confesso que não foi o caso.
Dos que não passaram ao largo,
foi substância e não acidente
do que me foi permitido ter logrado.
Que as miragens do desejo idealizado
se submetam as ferramentas
de entendimento para que se saiba
do que trata este estado
que se abre à utopia da felicidade.
O tijolo da casa de Sócrates
também levanta as paredes
que me abrigam de equívocas sortes.
Quando algo tido por amor
não conta com as contas com que
se fiam o colar de um conceito,
como a existência da cumplicidade,
entrega, equilíbrio das trocas,
olhar que busca uma mesma direção,
cuidado do outro, entre outros,
que denunciariam as vísceras
e o contorno do sentimento cobiçado,
ele não é mais que o peixinho dourado
das idealizações num aquário de ilusões.
No mais, o amor idealizado,
de farta oferta no mercado,
é a promessa irrealizável
da casinha de cerca branca partilhada,
em uma espécie de sucursal do paraíso,
no lote destinado aos que carecem de juízo,
com desengano assegurado.

Eliseo Martinez
13.07.2020