300.
Delicadeza
Eu, aqui, pensando...
este contexto de tantas perdas
e escassos ganhos,
memórias póstumas,
esquecimentos precoces...
o vírus a abreviar vidas
por toda parte,
cumulando de cadáveres
obscenas covas rasas
também nestas paragens,
onde já não se passa
de mão em mão as cuias de mate...
Sem mais, toc, toc, toc!
(batidas à porta)
Neste início de tarde, gelado,
enquanto casas são invadidas pelo Lago,
fazendo dos necessitados, desabrigados;
a peste arregimenta desempregados
sob o giro furioso dos tornados
que varrem a esfera azulada
no exato ponto onde me encontro,
redescobrindo Machado,
no sofá frente à janela, acueirado.
Levanto-me a contragosto
e atendo ao inesperado chamado...
... para ser alvejado pelo gesto gentil,
na contramão deste tempo hostil.
Não há animal ferido
ou casco de fera brava,
nem mesmo ex-funcionário
que não necessite de pausa
para refletir sobre o inusitado caso,
com a devida escusa a Cubas,
em que pese o desdém declarado
do mais loquaz dos finados.
E eu, em retiro, a testemunhar
o insubordinado ato,
ante temores e egoísmos,
que nos têm fundido
a cara à máscara
pelos meses que se arrastam.
Faz pesar a crosta dura da couraça
e, por que não?,
melhor dosar o antídoto da desdita graça.
Quanto ao fato desmesurado,
acima mal relatado,
é coisa que fica melhor guardada
entre as memórias privadas
a serem bem lembradas,
no entanto, carece ser registrada.
Eliseo Martinez
15.07.2020
Nenhum comentário:
Postar um comentário