Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

305.

Trágica ironia

Bem sei que,
conduzido tantas vezes
para fora de mim mesmo,
ora sob o beijo do desejo,
ora sob o hálito do medo,
sacrifiquei salvaguardas da razão
pelas escolhas cegas do acaso
em que nos lança o coração.
Vezes sem conta,
fiz-me dos afetos, corsário,
escriba frio desses inventários,
arcanjo entre os anjos,
azougue entre demônios.
Rodei mundo e não encontrei certeza
que não carregue grão de dúvida
no oco de seu ventre murcho.
Por todo o lado,
testemunhei o triunfo do efêmero,
vi homens tombarem em abatedouros,
gravando-me nas narinas
o cheiro dos odores.
Dormi sonhos, despertei pesares
e, por conta do impreciso das coisas,
contaminei-me de vertigens.
Se reescrever não nos é possível,
inútil ou proibido
e falte o que já se encontre escrito,
resta a ironia trágica
que dá rosto à cara,
a fazer com que cada vida
se enfeite um pouco
e, à falta de outra, valha.
O que mais pode a fé dos sem credo
senão crer na invenção do próprio enredo?
... mas isso já é muito ponto
prá tão pouca linha, aqui, de pronto.

Eliseo Martinez
26.08.2020

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

304.

Bem vinda, flor de mel!

Pois é, viestes ao mundo!
Não são bem os campos de asfódelos
para os que chegam,
mas é, por enquanto, o que temos.
E um bom motivo para nele estar
é fazê-lo um tantinho melhor,
não só no círculo de giz
riscado à volta de nós,
mas por todo o lado,
por distinto que soe o som da voz.
Nem sei se algum dia
terei tua mão na minha,
teus olhos nos meus,
mas trago um baú de imagens
que te pertencem, já que a outros
não foram úteis e bem podem
ser a ponte entre tu e eu.
Parte de que és feita
cruzou a linha entre o Sul e o Norte
e te confesso, desde agora,
não me entusiasmam os yankees
e sua outra história americana,
mas, não tendo jeito,
que tragas em ti mais a California
- dos velhos hypies - 
e a multicultural New York,
que as tochas do Mississipi
ou, do Texas, seus brinquedos de morte;
que tragas mais a New Orleans
- dos violinos e banjos negros -,
do que a Florida - dos cubanos e brasileiros,
lambuzados de cachorros quentes,
fakes dos novos nativos e seus parentes.
Ah! Podias trazer no sangue
ou num canto de uma aldeia da mente
um pouco da tinta
que tingiu a pele dos vermelhos.
Vê se não te esqueces do blues,
do country e do rock
e, também, um tanto dos muitos
que pagaram caro por nos mudar a sorte.
Kibon que viestes,
pequena flor de mel silvestre!
Que te espera mais à frente?
Será mais do mesmo ou será diferente?
Só o tempo nos dirá para o que veio,
sweet baby.
Nestas paragens, estamos sujeitos
aos ventos do acaso
e as marcas dos seixos,
pelo caminho, encontrados,
mais do que ao fruto doce
de nossa justa vontade.

Eliseo Martinez
13.08.2020

terça-feira, 11 de agosto de 2020

303.

Hã !? 


¬  Que pensaria a folha
em branco sobre a mesa -
se folhas pensassem,
naturalmente - caso
a tinta do tinteiro
deixasse de lhe rabiscar
palavra - se, com tinta dessas,
ainda se desse forma
ao desenho das ideias -
por falta de assunto na mente
do sujeito a sua frente?
.
Que espanto pode causar
tal ofício do pensar,
se há quem o diria
sem pé e sem cabeça -
já que se deva duvidar
de quem tenha visto
o mais sóbrio pensamento
a pisar chão que o sustente
ou a tocar com maneirismo
o chapéu que lhe guarneça?
.
¬ Hã !?

Eliseo Martinez
11.08.2020

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

302.

Perdidos e achados

Conheci um cara que caiu na estrada.
Os idos anos 70, de séculos passados,
chegavam para legar ao mundo
sons e cores da pacífica rebeldia
que tomou de assalto corações e mentes
de uma nova e intensa nostalgia,
forte o suficiente para reinaugurar
a humanidade em toda a gente,
dando sentido a suas vidas
e lume a rumos diferentes.
Pertencer não mais se prendia
aos limites definidos de um lugar,
associava-se, agora, a um jeito de ser,
uma maneira de estar.
Fazia-se ouvir a desobediência
que tomava o espaço aberto como lar,
na solidão da estrada
ou em comunidades nômades
a revisitar antepassados,
celebrando livres sua nudez ao luar.
Estranhamente, talvez,
dentre os feitos desses dias
nos lembre o medo por eles varrido,
mesmo sob o triunfo do chumbo
vertido na terra por assassinos.
Aos 17, recém contados,
aquele tal cara, de quem te falo,
se fez um de uma legião de desgarrados,
arautos dos novos tempos,
e se foi atrás de nada.
Se lhe perguntassem, nem ele sabia
o que procurava àqueles dias.
O impulso à queda livre e o vento no rosto
costurados a uma vaga ideia de liberdade
e grãos de poesia colhidos
dos livros que lia
lhe enchiam a mochila quase vazia.
Não foi o único a sair por aí,
nesse insólito estado,
sem destino, sem dinheiro, sem passado,
cabelos pelos ombros e um jeans surrado,
mão erguida e dedo em V,
enquanto crimes de uma remota guerra
invadiam as salas pela TV.
Diferentes de agora,
a resposta dos garotos da hora
negaram velhos rumos herdados,
refazendo a própria história,
à custa de inofensivos pecados.
Armaram-se de ramos de flores,
boleias, paz e tenros amores,
guitarras distorcidas,
berimbaus, flautas doce
e canções à beira do fogo,
na companhia de uma fulana
que parece, ainda hoje,
atender pelo nome de Maria Joana.
Assim como outros de seu tempo,
precisou de algum para entender
que só buscava a si mesmo.
Houve os que foram mais longe
e se embretaram pela selvagem natureza
à procura do velho ônibus quebrado,
pintado de branco e verde claro,
até há pouco, estacionado
no meio da vastidão do deserto gelado
para, ali, serem salvos
e, por vezes, ali mesmo, condenados.
Depois dos Brasis todos, por onde andou,
tantos que só pelo fio da palavra falada
se enfia tanta miçanga desparceirada,
- razão de tolos chamá-los pátria amada -,
retornou para o lugar
onde lhe ficou a raiz espetada.
De volta ao Porto,
não tardou a ser apanhado
pelo que nos enreda a vida
nas cidades congestionadas,
ávidas em fazer girar
suas malditas engrenagens.
Acabou se desviando
pelos descaminhos do trabalho,
a armadilha das rotinas,
teto, seguros e horários.
E, a rês, mais uma vez,
viu-se de regresso ao rebanho
que havia abandonado.
Visto de longe,
fez o que devia, fez o que pode;
mais de perto, talvez nem tanto.
Tons de liberdade foram barganhados
pela promessa do pasto à hora certa,
formalidades que matam, contratos de afeto,
a conta com que paga contas
e a vida vivida pelo acordo de outros
que vieram muito antes.
Conheci um cara que há muito se perdeu,
o nome dele não era Outro,
acho que o nome dele era Eu.

Eliseo Martinez
10.08.2020