Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

302.

Perdidos e achados

Conheci um cara que caiu na estrada.
Os idos anos 70, de séculos passados,
chegavam para legar ao mundo
sons e cores da pacífica rebeldia
que tomou de assalto corações e mentes
de uma nova e intensa nostalgia,
forte o suficiente para reinaugurar
a humanidade em toda a gente,
dando sentido a suas vidas
e lume a rumos diferentes.
Pertencer não mais se prendia
aos limites definidos de um lugar,
associava-se, agora, a um jeito de ser,
uma maneira de estar.
Fazia-se ouvir a desobediência
que tomava o espaço aberto como lar,
na solidão da estrada
ou em comunidades nômades
a revisitar antepassados,
celebrando livres sua nudez ao luar.
Estranhamente, talvez,
dentre os feitos desses dias
nos lembre o medo por eles varrido,
mesmo sob o triunfo do chumbo
vertido na terra por assassinos.
Aos 17, recém contados,
aquele tal cara, de quem te falo,
se fez um de uma legião de desgarrados,
arautos dos novos tempos,
e se foi atrás de nada.
Se lhe perguntassem, nem ele sabia
o que procurava àqueles dias.
O impulso à queda livre e o vento no rosto
costurados a uma vaga ideia de liberdade
e grãos de poesia colhidos
dos livros que lia
lhe enchiam a mochila quase vazia.
Não foi o único a sair por aí,
nesse insólito estado,
sem destino, sem dinheiro, sem passado,
cabelos pelos ombros e um jeans surrado,
mão erguida e dedo em V,
enquanto crimes de uma remota guerra
invadiam as salas pela TV.
Diferentes de agora,
a resposta dos garotos da hora
negaram velhos rumos herdados,
refazendo a própria história,
à custa de inofensivos pecados.
Armaram-se de ramos de flores,
boleias, paz e tenros amores,
guitarras distorcidas,
berimbaus, flautas doce
e canções à beira do fogo,
na companhia de uma fulana
que parece, ainda hoje,
atender pelo nome de Maria Joana.
Assim como outros de seu tempo,
precisou de algum para entender
que só buscava a si mesmo.
Houve os que foram mais longe
e se embretaram pela selvagem natureza
à procura do velho ônibus quebrado,
pintado de branco e verde claro,
até há pouco, estacionado
no meio da vastidão do deserto gelado
para, ali, serem salvos
e, por vezes, ali mesmo, condenados.
Depois dos Brasis todos, por onde andou,
tantos que só pelo fio da palavra falada
se enfia tanta miçanga desparceirada,
- razão de tolos chamá-los pátria amada -,
retornou para o lugar
onde lhe ficou a raiz espetada.
De volta ao Porto,
não tardou a ser apanhado
pelo que nos enreda a vida
nas cidades congestionadas,
ávidas em fazer girar
suas malditas engrenagens.
Acabou se desviando
pelos descaminhos do trabalho,
a armadilha das rotinas,
teto, seguros e horários.
E, a rês, mais uma vez,
viu-se de regresso ao rebanho
que havia abandonado.
Visto de longe,
fez o que devia, fez o que pode;
mais de perto, talvez nem tanto.
Tons de liberdade foram barganhados
pela promessa do pasto à hora certa,
formalidades que matam, contratos de afeto,
a conta com que paga contas
e a vida vivida pelo acordo de outros
que vieram muito antes.
Conheci um cara que há muito se perdeu,
o nome dele não era Outro,
acho que o nome dele era Eu.

Eliseo Martinez
10.08.2020

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