Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

325.

Flores de sal


Como eu queria ter de onde colher
palavras doces para te deixar.
Mas, por onde ponho-me a procura,
apenas vejo a aridez
que te empenhaste em cultivar.
Depois de tempo tanto
ampliando distâncias a nos separar,
como não reconhecer o empenho
com que me manteve à margem
dos caminhos que decidiste trilhar?
Pelo afinco com que levaste a cabo
tua estranha obra,
parece que nada te custou
virar as costas a quem sempre amou
e segue a amar-te,
resistindo ao esmaecimento
que mina o mais forte dos sentimentos.
Ao olhar para trás, percebo, agora,
a extensão dos danos causados
por tua ausência voluntária.
De dois, fostes a que vingaste,
nem chance teve o primeiro.
Hoje, como seria ele,
também indiferente
ou verdadeiro companheiro?
Nada de importante deixo ao partir.
Que tenhas igual cuidado
em dar a tua própria prole,
que mal deu-me a por os olhos,
o amor que me recusou,
caso amor algum tu tragas
em teu conturbado coração.
Por certo não deve te faltar
razões ao que fizeste.
Quem disse que razões
precisam ser razoáveis,
mesmo sicários tem as suas,
boas ao menos para eles mesmos,
por mesquinhas que sejam suas queixas.
Os cúmplices de teus atos
provaram o quanto ressentimentos
de um amor desfeito
podem fazer prosperar
o menos saudável que há em nós.
Um afeto descontaminado,
não deveria, quando for o caso,
negar-se a negar ao formar
os que ao mundo traz,
no intuito de os fazer mais justos,
acima de tudo.
Filhos têm de ser mais que a resposta
ao vazio que se leve dentro
ou que nos afirme frente a tudo
o que nos rói o peito.
Não sou o inimigo!
Menos, ainda, o teu inimigo!
Mas, não há como negar.
Difícil, mesmo, é perdoar-te
a maldade de me recusar
o todo de que sou parte.
Como negociar afetos?
Me responde, se puderes,
pois disso nada sei, fique certa.
Quem sabe jogue alguma luz
no fundo escuro com que pintaste
o espaço entre eu e tu.
Te desejo o melhor,
mesmo que não perto.
Não te negaria preces,
caso as tivesse.
Segue teu caminho, filha minha.
Só não esquece, minha porta
está sempre aberta.
Estarás em mim como sempre esteve,
desde que nasceste.
Se o sal da terra vem do suor e lágrimas
dos que por elas varam,
tu és o sal que de mim ficou
e, das minhas mortes,
a que mais matou.

Eliseo Martinez
28.01.2021

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

324.

O buraco

Tinha um buraco por onde passo,
por onde passo tinha um buraco,
que ficava lá me olhando
enquanto cedo eu ia
e vinha ao final de cada dia.
No início era coisa pouca,
buraquinho de pouca monta.
Queria nem ver, mas sempre via
até o dia que de olho virou boca,
se pulasse, ele me engolia.
Com o tempo, achei jeito
de contornar aquela fome,
que nem sei se dente tinha,
era fome que só crescia.
Ao fim, cresceu tanto
que desmoronou sobre si mesmo,
engolindo-se pelos cantos,
virado pelo avesso.
Agora, até dá passagem,
o que era buraco é um declive
que carece de cuidado.
Mas sei que o tal buraco
só não volta a ser buraco
quando for de novo aberto,
bem arrumado,
picareta, pá, enxada,
terra e pedras reviradas,
um bocado de trabalho
e, então, mais uma vez,
coberto e dar-se por fechado.

Eliseo Martinez
26.01.2021

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

323.

Pombas da noite


As vezes, no profundo das noites,
pássaros feitos de sombras
invadem o silêncio do quarto,
inquietam meus pensamentos
e, no escuro, revoam meus medos.
Estão mais para pombas insanas
do que os corvos que mal conheço.
Partem com a luz das manhãs,
deixando no espaço, já claro,
seus corpos de aves tracejados,
como bolhas de sabão
que já nada são.
Mas, é claro que são.

Eliseo Martinez
20.01.2021

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

322.

O ano que não acabou


Pois bem, 2020 se foi
e foi-se melancolicamente,
rastejando feito peçonhenta serpente,
não deixando rastro de saudades
na consciência dos que, tristemente, 
acompanharam pelos noticiários
a virulência de um organismo invisível
abreviar 200 mil vidas de brasileiros
e em torno de 2 milhões,
pelo mundo inteiro.
Foi o ano em que a História
recuou encabulada,
obrigados que fomos
a fazer a defesa da Ciência
e, com ela, o sentido e o valor
do conhecimento,
lembrar conquistas da humanidade
tidas como certas, a mais de dois séculos,
como a descoberta das vacinas
e práticas de preservação da vida,
já inscritas em velhos textos bíblicos.
Ano da explosão de fake news,
em que a mentira e o embuste
foram hasteados feito bandeiras
por um em cada três
no interior de nossas fronteiras,
num imbróglio de ignorância,
manipulação político-ideológica e religiosa.
Ano em que as consequências da pandemia,
amplamente divulgadas e sabidas,
em nada mudaram o dia-a-dia
de jovens embezerrados pelo tédio
e o horror ante a necessidade
de fazer o trabalho da mente,
a ação maliciosa de negacionistas,
e sua fobia pela abstração e livre raciocínio,
qualidades que distinguem homens de bestas,
numa escalada de alienação,
ainda a ser devidamente estudada
e melhor compreendida.
Ano em que vimos evaporas os empregos
e a ação nociva dos mercados
sobre o preço dos alimentos,
enquanto corpos sem vida
seguem sendo acumulados em containers,
a espera de covas que os recebam.
Ano em que presidentes
negaram sistematicamente
a gravidade da crise,
denunciando o desprezo à vida,
arraigado em vasta parte das elites,
tanto no quintal quanto na metrópole,
reabilitadas nesta perversa condição
pela dupla de incompetentes
eleita pelo engodo do povo, no continente.
O ano em que os sorrisos foram encobertos,
os olhares se toldaram de medo, perplexos,
e a distância física se somou
as distâncias já conhecidas.
O ano que não acabou
ao deixar suas larvas de verme
para o ano que lhe segue.

Eliseo Martinez
02.01.2021