325.
Flores de sal
Como eu queria ter de onde colher
palavras doces para te deixar.
Mas, por onde ponho-me a procura,
apenas vejo a aridez
que te empenhaste em cultivar.
Depois de tempo tanto
ampliando distâncias a nos separar,
como não reconhecer o empenho
com que me manteve à margem
dos caminhos que decidiste trilhar?
Pelo afinco com que levaste a cabo
tua estranha obra,
parece que nada te custou
virar as costas a quem sempre amou
e segue a amar-te,
resistindo ao esmaecimento
que mina o mais forte dos sentimentos.
Ao olhar para trás, percebo, agora,
a extensão dos danos causados
por tua ausência voluntária.
De dois, fostes a que vingaste,
nem chance teve o primeiro.
Hoje, como seria ele,
também indiferente
ou verdadeiro companheiro?
Nada de importante deixo ao partir.
Que tenhas igual cuidado
em dar a tua própria prole,
que mal deu-me a por os olhos,
o amor que me recusou,
caso amor algum tu tragas
em teu conturbado coração.
Por certo não deve te faltar
razões ao que fizeste.
Quem disse que razões
precisam ser razoáveis,
mesmo sicários tem as suas,
boas ao menos para eles mesmos,
por mesquinhas que sejam suas queixas.
Os cúmplices de teus atos
provaram o quanto ressentimentos
de um amor desfeito
podem fazer prosperar
o menos saudável que há em nós.
Um afeto descontaminado,
não deveria, quando for o caso,
negar-se a negar ao formar
os que ao mundo traz,
no intuito de os fazer mais justos,
acima de tudo.
Filhos têm de ser mais que a resposta
ao vazio que se leve dentro
ou que nos afirme frente a tudo
o que nos rói o peito.
Não sou o inimigo!
Menos, ainda, o teu inimigo!
Mas, não há como negar.
Difícil, mesmo, é perdoar-te
a maldade de me recusar
o todo de que sou parte.
Como negociar afetos?
Me responde, se puderes,
pois disso nada sei, fique certa.
Quem sabe jogue alguma luz
no fundo escuro com que pintaste
o espaço entre eu e tu.
Te desejo o melhor,
mesmo que não perto.
Não te negaria preces,
caso as tivesse.
Segue teu caminho, filha minha.
Só não esquece, minha porta
está sempre aberta.
Estarás em mim como sempre esteve,
desde que nasceste.
Se o sal da terra vem do suor e lágrimas
dos que por elas varam,
tu és o sal que de mim ficou
e, das minhas mortes,
a que mais matou.
Eliseo Martinez
28.01.2021