Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

322.

O ano que não acabou


Pois bem, 2020 se foi
e foi-se melancolicamente,
rastejando feito peçonhenta serpente,
não deixando rastro de saudades
na consciência dos que, tristemente, 
acompanharam pelos noticiários
a virulência de um organismo invisível
abreviar 200 mil vidas de brasileiros
e em torno de 2 milhões,
pelo mundo inteiro.
Foi o ano em que a História
recuou encabulada,
obrigados que fomos
a fazer a defesa da Ciência
e, com ela, o sentido e o valor
do conhecimento,
lembrar conquistas da humanidade
tidas como certas, a mais de dois séculos,
como a descoberta das vacinas
e práticas de preservação da vida,
já inscritas em velhos textos bíblicos.
Ano da explosão de fake news,
em que a mentira e o embuste
foram hasteados feito bandeiras
por um em cada três
no interior de nossas fronteiras,
num imbróglio de ignorância,
manipulação político-ideológica e religiosa.
Ano em que as consequências da pandemia,
amplamente divulgadas e sabidas,
em nada mudaram o dia-a-dia
de jovens embezerrados pelo tédio
e o horror ante a necessidade
de fazer o trabalho da mente,
a ação maliciosa de negacionistas,
e sua fobia pela abstração e livre raciocínio,
qualidades que distinguem homens de bestas,
numa escalada de alienação,
ainda a ser devidamente estudada
e melhor compreendida.
Ano em que vimos evaporas os empregos
e a ação nociva dos mercados
sobre o preço dos alimentos,
enquanto corpos sem vida
seguem sendo acumulados em containers,
a espera de covas que os recebam.
Ano em que presidentes
negaram sistematicamente
a gravidade da crise,
denunciando o desprezo à vida,
arraigado em vasta parte das elites,
tanto no quintal quanto na metrópole,
reabilitadas nesta perversa condição
pela dupla de incompetentes
eleita pelo engodo do povo, no continente.
O ano em que os sorrisos foram encobertos,
os olhares se toldaram de medo, perplexos,
e a distância física se somou
as distâncias já conhecidas.
O ano que não acabou
ao deixar suas larvas de verme
para o ano que lhe segue.

Eliseo Martinez
02.01.2021

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