324.
O buraco
por onde passo tinha um buraco,
que ficava lá me olhando
enquanto cedo eu ia
e vinha ao final de cada dia.
No início era coisa pouca,
buraquinho de pouca monta.
Queria nem ver, mas sempre via
até o dia que de olho virou boca,
se pulasse, ele me engolia.
Com o tempo, achei jeito
de contornar aquela fome,
que nem sei se dente tinha,
era fome que só crescia.
Ao fim, cresceu tanto
que desmoronou sobre si mesmo,
engolindo-se pelos cantos,
virado pelo avesso.
Agora, até dá passagem,
o que era buraco é um declive
que carece de cuidado.
Mas sei que o tal buraco
só não volta a ser buraco
quando for de novo aberto,
bem arrumado,
picareta, pá, enxada,
terra e pedras reviradas,
um bocado de trabalho
e, então, mais uma vez,
coberto e dar-se por fechado.
Eliseo Martinez
26.01.2021
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